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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Rascunhos


1981, no rádio, se ouve Ivan Lins, uma música que fala de aprendizado, de vivência chamada “Daquilo que eu sei”, uma mulher espera na sala de emergência, que o Sr. Doutor se digne a aparecer. 

A enfermeira ao telefone, balança afirmativamente a cabeça e desliga, se dirigindo a maca, onde uma grávida se contorce  de dor, percebendo que por mais experiência que se tenha, ( já estava no terceiro rebento), nada nos prepara para esse momento. 

A enfermeira fala alguma coisa, que entre os espasmos de dor da mulher grávida, tornam-se inaudíveis, e só o que a pobre mulher consegue visualizar, é a agulha sendo preparada, que lhe entra pela veia, trazendo na dor da picada, um pouco de alívio afinal.

Mais algumas horas se passam, e nada do Sr. Doutor, as dores assaltam novamente seu corpo e lá vem a dona agulha de novo, trazer alívio imediato.

A enfermeira mostra-se nervosa, novamente pega o telefone, agora visivelmente perturbada, se volta para a gravida deitada na maca, que meio dopada, ouve – a fazer alguma afirmação e num gesto repentino, sair empurrando sua maca corredor à dentro.

Nasci uma linda menina, 4,60 gramas, 50 cm, um bebezão perfeito, exceto pela protuberância eminente no alto da cabeça, herança da demora do Sr. Doutor. 

Muitos anos se passaram, logo chegam os inta, os enta, e passo a me perguntar o realmente fiz de bom, chegando a conclusão que vivi, apenas lutei com as armas que foram a mim disponibilizadas.  Ataquei no momento do ataque e recuei no momento da dor, e olha que meu nível de dor é bem elevado.

Igualmente tive uma linda menina, com exatos 4,60 Kg, igualmente linda e mesmo num parto difícil, foram 18 horas de trabalho de parto induzido, ela nasceu perfeita, linda e cheia de fome.

Algumas coisas, realmente acredito que poderiam ter sido diferentes, mas tudo, como dizem os sábios, aconteceu como tinha que acontecer, no momento e no lugar certo. Posso considerar que tive uma boa vida, cheia de altos e baixos, mas fazer o quê, como boa sagitariana que sou, só fiz o meu papel. Quando amo, amo demais, me jogo de cabeça, e sem capacete. Paixão é a máxima do sagitariano, em tudo, absolutamente tudo que faz. E esse, talvez tenha sido meu principal defeito, paixão pela vida e necessidade de experimentar, de sentir, de me colocar forte e vulnerável, fortaleza e cristal, mas inteira, exposta, afinal nenhum Centáuro passa desapercebido, caçadora de mim mesma, essa sou eu.

Mas o caso é que com “toda” essa vivência, pude tirar algumas conclusões.

O ser humano é um ser no mínimo curioso. Adora gravar em seu corpo, tatuando figuras lendárias, amores, ou algum símbolo que faça parte ou represente sua vida, seus credos, seus amores e, no entanto, teima em apagar do rosto, com cremes milagrosos anti – rugas, anti –idade, os dias de sua existência.

Todo processo de transformação é doloroso, de uma forma ou de outra. Porque a transformação exige entrega, exige empenho, mesmo que apenas o esforço do processo de adaptação, de aceitação do novo. Normalmente, tudo que é novo, causa receio. Tememos o que desconhecemos, é inevitável, instintivo até. Mas esse processo inflamatório todo, institui-se depois de uma determinada fase da vida.

Quando somos crianças, aprendemos desde cedo por processos experienciais. Para andar aprendemos caindo, para falar, aprendemos balbuciando, pronunciando meias palavras.

No caso da alimentação, pior ainda, antes de aprendermos as regras de etiqueta à mesa, são milhares e milhares de pratinhos de papa no chão, e em nossos cabelos e roupas, enlouquecendo nossos, sempre pacientes progenitores.

É a lei da vida, o processo de evolução requer transformação, que requer aprendizagem, que requer experimentação, que requer um jogo eterno de erros e acertos, que requer tempo e assim sucessivamente.

Viver, é um eterno querer. A eterna busca do ser, do ter, do estar. Cada qual com seus parâmetros, o que te faz feliz, pode ser uma bobagem para o cara ali do lado e vice e versa.

Por exemplo, sabe o que me deixa feliz? Um pote de pipocas, um desenho da Cinderela ou da Pequena Sereia, para assistir do lado da minha pequena. Ou comprar aquele livro que eu tanto queria. Ou encontrar uma raridade da Bossa Nova na promoção de um sebo qualquer.

Cada um tem seu nível de felicidade, como naqueles brinquedos para medir a força nos parques de diversões. Só tomando o cuidado para que o brinquedo não esteja adulterado, e não tenha ninguém lá atrás, segurando ou liberando o haltere, em cada batida do martelo.

Não existe ninguém, meio feliz, assim como não existe meio triste, meio gelado ou meio grávida. São estados sólidos, concisos, que não têm margem de erro possível. Ou seja, ou se está ou não.

Renascer, renovar, refazer, reinventar. Rever conceitos, reverter estados, revisar valores, remendar buracos.

Relembrar não só das coisas boas, mas rever as ruins, tentando entendê-las e refazendo o final de cada história.

Essa é a nossa missão na terra, como autores da nossa vida, reescrever, muitas e muitas vezes, rascunhos e rascunhos de histórias, até que possamos finalmente e verdadeiramente reeditá-las, com uma capa mais elegante, e nas últimas páginas, aí sim, um final mais feliz.

 

 

Por Aliye Luz

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