sábado, 25 de maio de 2013
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
2062
Lia desperta.
Ainda meio zonza tenta localizar-se. Lembra-se de onde está, porém o sonho ainda
lhe parece tão vívido, quase pode sentir o cheiro do cafezinho, emanando do
bule que fervia na cozinha da casa de sua Avó. Por um breve momento, chegou a
confundir-se.
- Lia Anderson, você tem vinte minutos para
aprontar-se. Seu banho já está preparado – diz uma voz feminina e familiar.
Lia resolve
então levantar-se. Aciona o botão do controle de sono, lateral a cama. O
capacete virtual que envolvia sua cabeça dissípa - se no ar. Lembra-se que o
havia programado para sonhar com a antiga casa de sua Avó, da qual tinha muitas
lembranças boas.
Põe-se
sentada à beira da cama, ouvindo o aviso de sua secretária virtual, a qual Lia
batizou singelamente de “Beth”, pois, mesmo que apenas uma projeção
computadorizada, gostava de imaginá-la como uma pessoa pela qual teria apreço.
- Beth querida, bom dia para você também. Sol,
por favor - Diz espreguiçando-se - Hoje gostaria de um belo dia ensolarado.
Beth programa
o controle de “Dia personalizado”, e um belo céu azul, limpo e claro surge na
parede branca e fria.
Lia
encaminha-se para o seu banho matinal. Posiciona-se centralizadamente no
interior do Box de vidro azul escuro, levanta o rosto e a um comando de sua
voz, um jato de vapor, numa temperatura bem agradável, surge da canalização da
parede, umedecendo seu corpo. A um segundo comando, um novo jato de vapor, agora
providencia a secagem.
Lembra-se do
sonho, das toalhas macias de sua Avó com flores bordadas, roçando em sua face. Lia lembra-se, que ainda na época de sua mãe, baniram-se
as toalhas, ao mesmo tempo quase, que o uso da água nos banhos.
Aliás, quase
tudo que envolvia o uso da água para algum uso, que não o de exclusiva
sobrevivência, foi banido ainda em 2036, tinha na época cinco anos, mas
lembra-se bem.
Sai nua do
chuveiro, encaminha-se ao seu quarto para vestir-se, mais um dia de trabalho.
Todas as roupas, embora muito funcionais, tem prazo de validade bem curto, 24
horas. Ao final de cada dia, são descartadas.
Lia opta por
um modelo simples, com corte reto e confortável, perfeita para um dia inteiro
de trabalho.
Levanta os
braços e ao seu comando, um laser de cor azulada corre por seu corpo nu,
construindo, numa fração de segundos, o modelo escolhido, bem como a maquiagem
suave.
Lia dá uma
última olhadela no visual, e encaminha-se ao transportador.
Em sua época,
quase não existem mais veículos, e os poucos que existem são de pessoas que
podem dar-se a esse luxo, e esse, definitivamente não era o seu caso. As
pessoas comuns utilizam os Transmol’s, Transportadores Intermoleculares de
curto Espaço.
Sua Avó com
certeza faria graça desse nome. Mas são equipamentos muito úteis, que poupam
tempo e dinheiro de quem os utiliza.
O que ocorre
é o transporte, molécula por molécula de um lugar a outro em nano segundos. Pode-se ir a qualquer lugar dentro do
perímetro estadual. Para viagens mais longas, é necessário ir até a CETTI, Central
de transbordo para Transporte Intermolecular. Não existem passaportes, todos os
seres vivos (ou até virtuais) portam chips de identificação, os quais são
inseridos na córnea logo após o nascimento.
Mas somente
para àqueles classificados como classe média, média alta, alta, e os chamados
RASD (Raça super desenvolvida), estes últimos herdeiros dos Campos do Centro da
Terra.
As pessoas de
condições pobres a miseráveis, quando ainda não castradas, são escaneadas e
cuidadosamente examinadas. Se constatado qualquer indício de pré – disposição a
algum tipo de doença, física ou psíquica, são encaminhados ao chamado “Campo da
Misericórdia”, alguns mais graves para extermínio e outros, com alguma
possibilidade de futuro, para tratamento prévio. Estes Campos são sustentados por Grupos
religiosos específicos, com apoio do governo.
Na verdade,
Lia sabe que a maioria nem passa por essa classificação, pois os meios de
extermínio custam muito menos à sociedade, do que os meios de recuperação.
Aliás, Lia
acredita que essa é uma premissa histórica, que vem bem antes dos novos tempos,
só que antigamente era feito de forma mais velada: Os mais pobres acabavam
exterminados naturalmente, pelas doenças, pela inanição, enfim por condições
realmente miseráveis.
Em meio aos
seus devaneios, Lia chega ao seu local de trabalho. Lia trabalha numa indústria
farmacêutica. Um dos ramos de maior crescimento nas últimas décadas.
Com o passar
dos anos e o processo de deterioração do meio – ambiente, da escassez de água
no planeta, seguindo – se das guerras pela posse das poucas nascentes de água
ainda existentes e das epidemias que se seguiram, a indústria farmacêutica
mundial teve um “bum” semelhante ao da indústria automobilística no passado.
Com o
processo constante de desidratação e as tentativas frustradas da produção de
uma água artificial e industrialmente criada, surgiram várias novas doenças.
Além disso,
as constantes mudanças climáticas, o declínio da proteção atmosférica contra os
raios solares, causaram a proliferação da procura por cosméticos
antienvelhecimento, agora renomeados para CRUHP’s, Cremes de ultra - hidratação
progressiva.
Lia também os
usa, claro que por questões estéticas, mas principalmente por questões de
sobrevivência, pois a desidratação é uma das principais causas de morte no
mundo, duas horas de exposição direta ao sol, pode acarretar sérias
conseqüências no ano de 2062.
Por isso,
talvez também o Transmól’s, tenham se disseminado tanto. As pessoas
dificilmente vão às ruas, pois além dos perigos atmosféricos, existem os
ataques, a exposição às doenças etc...
Todo
estabelecimento comercial, público e mesmo a maioria das residências existentes,
possui um Transmól’s.
Na verdade, o
que acaba gerando algum congestionamento, muitas vezes são necessários vários
minutos para conseguir-se uma conexão. O
que para os habitantes destes novos tempos, é muito, pois a expectativa de vida
foi reduzida para os cinqüenta anos, então, tudo deve ser muito acelerado.
Carreiras iniciam aos dez anos de idade, quando as crianças passam à puberdade.
Lia tenta
concentrar-se em seu trabalho, que na verdade nada mais é que um cargo
administrativo qualquer. Estudou apenas
até a segunda pós - graduação, o que na atual conjectura, não significa quase
absolutamente nada. Já passou dos trinta, então, em cinco ou seis anos, poderá
aposentar-se.
No momento, Lia
conta os dias para suas férias de verão. Vem guardando dinheiro há meses, para
a tão sonhada viagem a um Resort, no Centro da Terra.
Aliás,
destino esse de quase todas as pessoas com alguma condição financeira (ou como
no caso de Lia, com algumas economias guardadas ao longo do ano).
Lia leu muito
sobre o lugar, pesquisou inclusive na literatura clássica. Desde os devaneios
de Júlio Werner, a descoberta da possibilidade de exploração, até a disputa
territorial sangrenta, ocorrida entre a França e os Estados Unidos, pelos
direitos de exploração do território descoberto.
A França
alegava que Werner havia sido o descobridor original e os Estados Unidos
alegava que a sua equipe de cientistas é que havia feito a descoberta.
Lia não
entendia muito de política, mas no seu entendimento, a verdade é que os
cientistas americanos, baseados nos contos fantásticos de Werner, (agora
considerado não apenas um autor fantástico, mas um visionário, alguns o
denominaram até profeta), acabaram por decidir investir na possibilidade de que
suas fábulas, fossem verdadeiras e como “Colombo”, descobriram um continente
inteiro, com fauna, flora e diversos recursos naturais, que muito embora tão
limitados quanto seu exterior, poderiam sim ser explorados.
E é óbvio que
alguém teria que explorá-lo e não seria nenhum “Dalai Lama”, pronto a dividir
honestamente com o restante da humanidade. O mundo é dos vivos, já dizia a avó
de Lia, e ela considerava esse, um dos seus ditados favoritos.
Passam-se as
horas, Lia percebe que já está faminta, aproxima-se da hora do almoço. Encaminha-se
então ao refeitório, para receber sua dose diária de alimento.
No processo
de bloquear qualquer tipo de uso da água que não para consumo, a prática do ato
de alimentação foi se modificando. Hoje, os “operários” como Lia, acomodam-se
em cadeiras confortáveis e geladas de um couro absolutamente sintético. A um
comando seu, o capacete virtual materializa-se em suas cabeças. Em segundos,
percebem-se ao redor de uma grande mesa farta e cuidadosamente decorada, em
meio a um jardim de Begônias. Na sala
fria, uma agulha posicionada lateralmente à poltrona, é inserida em seus
pescoços, ao mesmo tempo, que o capacete é materializado. Em seguida, um
líquido verde escuro, é bombeado para dentro de seus corpos por alguns minutos.
Satisfeita, Lia retorna ao seu posto, para mais algumas horas de trabalho.
Hora de ir
para casa, Lia está exausta, louca para um banho e uma cama quentinha.
Encaminha-se
ao Transmól, enfrentando a fila de operários que se segue. Em menos de meia
hora, o que na sua época é tempo demais, Lia está em casa. Após um banho, Lia
aciona o sistema de vestimenta a laser, trocando seu alinhado look, pelo velho
pijama.
As
necessidades fisiológicas também foram suprimidas, posto que a alimentação é
completamente absorvida pelo organismo, simplesmente não há o que excretar. Com
isso, alguns órgãos também acabaram
praticamente inutilizados, o que também acarretou o surgimento de várias
novas doenças. A inoperância do organismo, também mostrou - se prejudicial.
Por isso,
algumas vezes por semana, Lia se submete a um tratamento específico, para
manter todos os seus órgão ativos, ou pelo menos, espera que isso os mantenha.
Lia conclui
que talvez esse seja o maior dos males do novo século: a inoperância.
Inoperância
física, emocional, intelectual. Tudo está pronto, vem enlatado, virtual e sem
nenhum esforço. Suas relações de amizades são restritas e talvez, possua maior
intimidade com sua secretária virtual do que com seus amigos reais.
Lia lembra-se
das histórias contadas por sua avó, sobre sua época de infância. Um tempo em
que se “ficava”, em que as redes de relacionamento virtual estavam ainda engatinhando
e o contato humano era necessário. Em que a música era produzida por pessoas de
verdade, com instrumentos de verdade, imperfeita, dissonante, mas com
sentimento.
Lembra-se de
um comentário da avó certa vez, de que na sua época, as pessoas comuns, de
poucas posses, andavam de “ônibus”, um veículo motor, que comportava um número
x de passageiros e transitava em qualquer via. Lembra que a avó dizia, com um
certo ar de nostalgia, que não entendia o porquê, mas nos ônibus as pessoas sentavam-se
umas ao lado das outras, tomando um cuidado máximo de não cruzar olhares, e que
isso era constrangedor. Quando Lia
questionava o porquê desse comportamento humano, sua avó lhe respondia com um
sorriso:
- Medo, minha querida. As pessoas têm medo de
se manifestar, de se envolver, de se mostrarem fracos e vulneráveis com um
simples sorriso. Não apaixonam - se por medo de sofrer, não têm filhos, por
medo de não serem pais perfeitos, não se casam por medo de uma separação, não
mudam de emprego por medo do fracasso, não comem o que gostam por medo de
engordar, não mudam de cabelo por medo de não se gostarem. Medo minha querida,
é a engrenagem que move a humanidade.
Lia ainda
hoje, concordava com sua Avó, só que hoje, o medo evoluiu, cresceu e com o passar
do tempo, foi engessando os seres humanos.
Hoje, é esse mesmo sentimento, fortificado e
evoluído, ao qual Lia chama de “inoperância”.
Pronta para
dormir, já aninhada na cama, Lia aciona o capacete virtual, programado para
sonhar com sua Avó, um pouco de alívio para seus dias de desespero e
incoerência.
- Olá querida
– diz a voz encorpada e conhecida - O que vamos fazer hoje?
Lia pára por
um instante e pensativa responde:
- Podemos
andar de ônibus Vovó?
Num instante,
percebe-se sentada, ao lado de sua Avó, mirando a paisagem passando rapidamente
pela janela. Do outro lado do corredor, um senhor de olhos muito azuis sorri.
Lia vê sua avó retribuir o sorriso e iniciar um papo sobre as condições do
Clima e sobre bolos de chocolate.
- Ativa e
operante, sem medo de ser feliz. – Pensa alto Lia - Pelo menos em meus sonhos.
Dia Ruim em Anland
Anny
tenta ajeitar-se no diminuto espaço do porta – malas. Não é
pequena, 1,70 de altura, então de nenhuma forma conseguiria não
sentir dor naquele aperto. Além disso, a mordaça em sua boca a
sufoca, tenta buscar o ar e vê tudo a sua volta girar. O ronco do
motor de seu carro, sonoro e familiar, lembra-se de que devia tê-lo
mandado regular. Tenta concentrar-se, pensa que se desmaiar, pode não
acordar. Tenta repassar esse dia em sua mente, buscando compreender o
que acontece e se manter raciocinando.
Lembra-se
que acordou por volta das 7h30 da manhã de hoje, foi até o portão
com seu pijama rosa quadriculado de flanela, recolheu o jornal e as
correspondências, nada de muita importância. Porém, ao passar o
olhos por contas e infinitas propagandas, chama-lhe a atenção um
envelope pardo, sem identificação alguma.
Anny
exita por um segundo. Sabe que não pode ter sido entregue pelos
correios, posto que não possui identificação alguma. Algum
admirador secreto? Anny sorri, por um instânte, pensando na
possibilidade. Não podia deixar de sentir-se lisonjeada se o fosse.
Não era hipócrita e sentiria-se satisfeita, como qualquer mulher
sentiría-se, se algum vizinho estivesse interessado na sua pessoa,
mesmo que fosse comprometida.
Abre
o envelope bem lacrado, com um certo cuidado e bem devagar puxa uma
folha branca, com letras coladas. Um arrepio gelado corre por seu
corpo e sente no mesmo instânte, o suor brotando do meio de suas
costas, enquanto conclui a leitura: “Cara Anny, não pense que eu
não irei atrás de você....sei tudo sobre você, assim como sabe
sobre mim. Em breve nos encontraremos”.
Anny
percebe sua respiração suspensa.
- Como assim? O que isso quer dizer? Eu sei....sei o quê? Eu não sei de nada que....- Anny respira fundo, tentando acalmar-se– Ok, Anny Louise Anderson, sem pânico. Deve ser algum maluco sem nada para fazer, só isso, um maluco idiota, fazendo uma brincadeira idiota. - Anny deposita a carta sob a mesa e encaminha-se para o seu banho matinal.
- Algumas horinhas na banheira me farão bem....- diz alto Anny, como tentando convercer a sí mesma.
Anny
entra na banheira repleta de espuma. Coloca uma toalha branca para
proteger a cabeça da superfície gelada da banheira. Tenta
concentrar-se no que lhe parece o mais importante no momento: seu
novo livro.
Começou
a tecer a teia da trama há algumas semanas, mas de uma hora para
outra, parece-lhe que uma cortina negra desceu sob seu cérebro.
Simplesmente não consegue escrever. Tentou Yoga, Taichi, chocolate,
anti – depressivos, mas nada, absolutamente nada tirou-lhe esse
bloqueio. Anny sabe, ou pelo menos quer acreditar, que isso é
momentâneo e que logo, logo estará vertendo ideias pelos poros,
como sempre.
Já
enrolada na toalha, pôe-se a frente do espelho com uma pinça.
Malditos pelos.... - Anny esbraveja, arrancando algumas penugens do
buço - Qual o sentido da sua existência?A
vibração do seu telefone, em cima do balcão do banheiro, a
obriga a largar sua pequena sessão de tortura mamtinal.- Alô..... - Anny pára, tentando ouvir o silêncio que se segue no outro lado da linha.
- Alô...Alguém aí... Olha eu tenho um identificador de chamadas, se isso for um trote é melhor se preparar, porque eu vou enfiar esse telefone pela sua.....
- Olá querida Anny. Recebeu minha cartinha? - diz uma voz masculina do outro lado da linha.
Anny
tenta controlar sua aflição. Na verdade no instânte em que atendeu
o telefone, soube do que se tratava. O silêncio, a respiração
compassada do outro lado, sabia que não poderia ser um simples
engano.
- Te deixei fazer o que quis até agora...- disse a voz misteriosa
– expondo minha vida, me colocando como aberração de circo
para deleite dos seus fãs - Anny tentava raciocinar, mas o chão
parecia tremer sob seus pés, com receio de desmaiar naquele
instânte, Anny tenta manter-se o mais calma possível – Ainda
está aí Anny? Anny? - Anny respira fundo, tentando não
demonstrar seu desespero- Estou....e não sei do que você está falando....quem é..e...que tipo de brincadeira estúpida está querendo fazer comigo. Mas aviso...meu namorado é polícial e não vai exitar em chutar esse seu traseiro, daqui até o Congo, seu idiota maníaco.
- Ooo, a sim, claro, o príncipe de jaqueta surrada e trejeito canastrão. O conheci e sabe Anny, ele..........manda lembranças.
Anny
sente como se levasse um soco na boca do estômago. Tentando manter o
raciocinio, diz pra sí mesma que o maldito filho da mãe está
blefando, é só um idiota, Lian nunca seria pego tão facilmente,
não o seu Lian.
- O que foi Anny? Perdeu a fala? Aaaa.. isso só pode ser
sintoma de saudade contida. Quer falar com ele? Adoro unir
casais apaixonados. Olha só querido Lian, sua namoradinha
quer dizer alô...- Anny, diz pra sí mesma que o desgraçado só pode estar blefando, mas aproxima mais ainda o aparelho do ouvido.
- Anny.....- Anny sente a força fugir-lhe do corpo, deixa-se cair devagar, escorando-se à parede. O desespero toma conta de sua mente – Seja o que for que ele lhe peça, não ceda Anny...ah... - Anny ouve um som seco de alguma coisa dura batendo e a voz de Lian sumindo do outro lado da linha.
- Podemos conversar agora, cara Anny? - novamente aquela voz, Anny sabe que nunca mais irá conseguir esquecer-se dela.
- Por favor....seja lá quem for você, ou o que queira de mim....só não o machuque.....por favor - Anny agora já não conseguindo controlar-se mais, implora ao estranho.
- OK, acho bem justos os seus termos. Então vamos fazer o seguinte....eu deixo o morenão aqui, com digamos, apenas alguns arranhões...afinal, há de concordar comigo que ele não é uma caça assim tão “fácil”. Mas em contrapartida.....- Anny ainda tenta raciocinar, medir, pesar o que quer que ele peça, sabe que fará, pois realmente ama Lian, não conseguiria viver sabendo que poderia ter feito alguma coisa para salvá-lo e não o fez. - Você vai pegar o seu carro.... - continua a voz do outro lado, Anny tenta concentrar-se para ouvir as instruções- vai dirigir até o velho galpão da antiga Central Distribuidora de Bebidas, perto da rodovia principal e parar. Aguarde até que eu faça contato. A querida...., te aconselho a agasalhar-se, está bem frio aqui fora.
- Quanto você quer....- Anny tenta ganhar tempo, pensando em como Lian agiria nesse caso.
- Quanto?...Querida, acha mesmo que me daria todo esse trabalho por ..dinheiro? - Lia percebe o tom de voz do estranho mudar da indiferença para uma explosão de raiva - Sua garota estúpida e fútil, não quero o seu dinheiro, quero que se dane. Que sofra tudo que eu sofri. Aliás...quanto foi a vendagem do seu último livro? Alguns dígitos acredito.....Pois eu, reivindico a minha parte nesse lucro, só que quero em espécie....aliás, o seu lindo corinho alvo. Anny ouve o som do telefone desligado por alguns segundos, tentando fazer sua alma retornar para o seu corpo.
Em choque, senta-se no chão e sem a mínima ideia do que fazer, apenas chora.
Tentando refazer-se, certa de que precisa ajudar Lian, encaminha-se para o armário no banheiro, pega um vidro branco de calmantes, enchendo a palma da mão. Pensa por alguns minutos na quantidade que estava decidida a tomar e decide tomar apenas três pílulas, não pode estar grogue, não poderia ajudar Lian assim.
Pega as chaves do carro, um casaco cinza de pura lâ italiana, o primeiro que encontrou pendurado na saída da porta e sai, batendo a porta às suas costas e certa de que essa noite, mudaria sua vida para sempre, e ela sinceramente rogava que Deus lhe concedesse mais uma chance, para sí mesma e para Lian.
Anny pára no acostamento da rodovia, em frente a antiga Distribuidora, conforme orientação. Tensa, olha para os lados, tentando visualizar alguma coisa, ou, qualquer coisa que pudesse identificar.
Tenta juntar as peças do quebra – cabeça. O sequestrador se referiu ao seu último livro. Um romance sobre um serial Killer, bem ao seu estilo. Aliás, Anny inicialmente havia menosprezado esse manuscrito, por o considerar de pouco vendabilidade. Por pouco não o havia incinerado, mas seu editor, num jantar em sua casa, o havia resgatado da lixeira. Anny não se importou, apenas o teria alertado de que aquela não era uma boa história. Ao que o seu editor respondeu com uma risada sarcastica que essa questão, de avaliar a vendabilidade ou não de uma obra, era sua e não de Anny. No dia seguinte, muito cedo ainda, ele pareceu na porta de Anny, com o manuscrito na mão e um brilho nos olhos que Anny conhecia bem.
- Vamos editá-lo, é uma obra prima!!. - Anny, nem tentou argumentar, sabia que com John, isso não funcionaria. Quando enfiava uma ideia na cabeça, não havia quem conseguisse demovê-lo
- OK – disse-lhe Anny – Mas se esse for o fim da minha carreira como escritora, saiba que cortarei meus pulsos e virei puxar seus pés a noite John, não tenha dúvida disso.
Mas não foi. “Dia ruim em Anland” foi um sucesso absoluto de vendas. Nem Anny acreditava naquilo. Como pode uma obra absolutamente irrelevante, com um enrredo sem grandes maravilhas literárias, tornar-se um sucesso de vendas e pior, o maior sucesso seu até hoje, diga-se de passagem. Isso realmente a perturbava. Ou suas obras eram tão insignificantes a ponto de ficarem abaixo dessa, que já achava ser insignificante, ou o nível cultural dos seus leitores vinha em um declínio constante. Anny não sabia dizer qual opção seria a mais desesperadora, enquanto escritora.
Mas voltemos a obra. A história contava sobre um serial Killer nos dias atuais, que roubava inicialmente roupas das mulheres que pretendia assassinar. Depois, as sequestrava, torturava e finalmente as matava, com as próprias mãos. Vestia seus cadáveres com a roupa que havia anteriormente roubado e passava dias em seu velho porão, dançando ao som de Willie Nelson com seus cadáveres.
De repente Anny ouve um barulho próximo a traseira do carro, como o som de uma pedra batendo contra a lataria.
Decide sair, afinal já que veio até aqui, de que adiantaria permanecer dentro do carro. Lentamente sai do veículo, observando o imenso breu à sua volta. O silêncio ensurdecedor daquela paisagem, congelava até os pelinhos do seu nariz. Com passos receosos, rodeia o veículo, tentando identificar o que teria batido na lataria. Parando pouco atrás do lado esquerdo do carro, percebe alguma coisa no chão. Aproxima-se um pouco mais, a escuridão da noite é muito grande. Apanha o celular do bolso, tentando identificar o objeto redondo e negro no chão, semelhante a uma bola. Mira a luz do celular e com o pé, tenta remexer o objeto.
- Meus Deus ! - grita Anny desesperada com a cena que visa. A cabeça de Lian, com olhos vidrados de desespero – sente alguém aproximar-se por trás e antes que tivesse tempo de virar-se, sente sua boca sendo tampada e perde os sentidos, ouvindo como se estivesse muito longe, a mesma voz que ouvira no telefone.
- Deus não vai te ajudar agora Anny. Agora somos eu e você. O sequestrador a toma em seus braços, observando-a por alguns instântes. Abre o porta malas, colocando-a delicadamente dentro do pequeno espaço. Como quem coloca para dormir uma criança e sorrindo fecha a porta do porta – malas do carro de Anny, entra e dá a partida, deixando para trás a cabeça de Lian, separada do corpo, no acostamento da rodovia.
Anny, remexe-se tendando acomodar-se no pequeno espaço de seu porta -malas. Aos poucos vai recobrando os sentidos e lembrando-se da cena que se seguiu. Tenta gritar, quando percebe a mordaça que tampa-lhe a boca. Percebe que suas mãos e pés estão amarrados e para seu desespero, ainda se percebe nua.
- Pronta minha querida – diz a voz que Anny jamais esquecerá , do lado de fora do carro.
- Anny, esbraveja resmungando, em parte por medo em parte por raiva do desgraçado que acabou com a vida de Lian.
De repente tudo fica muito quieto do lado de fora e Anny pára tentando entender o que se passa. A porta se abre e Anny pode visualizar o rosto do seu algóz, tornando ainda maior o seu desespero. Anny não só era uma excelente escritora, mas também fazia as suas próprias ilustrações, como em seu último livro, que estampava na capa, o rosto do seu personagem principal, o serial killer de “Dia ruim em Anland”, olhos azuis, rosto alvo, cabelo alinhado como um ator de propaganda de margarina. Anny nunca entendeu porquê aquele “tipo” veio-lhe a mente, mas achou interessante esse contra ponto entre o “belo” e a “fera”, meio a lá “Dorian Grey”. Mas agora, já não achava mais graça alguma, pois o filho da mãe que havia decapitado Lian e a sequestrado, era sem dúvida a projeção real da sua fantasia. O monstro de carne e osso que Anny havia ilustrado para a capa de seu livro, materializava-se à sua frente, como num dos seus contos de horror. Só que apavorantemente real.
O estranho venda- lhe os olhos. Anny percebe que ele a envolve em alguma espécie de cobertor, passam por um campo, por uma casa, uma porta que range vertiginosamente ao entrarem. Novamente uma escada, agora que segue para baixo. Sente por trás da venda que é um lugar muito escuro, com um odor desagradável, que Anny não consegue distinguir.
- Sente-se - Anny sente a mão dele em seu ombro, a empurrando, forçando-a assentar-se, semi nua sob uma superfície macia, mas gelada.
Ele retira-lhe a venda. Anny percebe onde está. É um porão, sujo, escuro e úmido. Com apenas uma lâmpada, enchendo de sombras os espaços, tornando a cena ainda mais assustadora.
- Vista-se - Ele lhe entrega uma caixa. Anny não tem forças para qualquer negativa. Apenas abre a caixa. Um vestido azul de seda, muito parecido com um dos seus. Aliás um dos seus que há algum tempo não encontrava mais. Lembrava-se de o ter enviado a lavanderia, mas não de tê-lo guardado novamente e …..Anny finalmente compreende. O desgraçado pensa que é o seu personagem, o que só faz seu pavor aumentar mais e mais, pois além de um maníaco homicida que decepa cabeças, agora Anny se dá conta de que está na companhia de um “fã” maníaco homicida, que pensa que é o pior serial Killer que já existiu, fugido de um dos seus próprios livros de horror idiotas
Anny veste a sua própria roupa roubada, tentando ganhar tempo e raciocinar sobre o que fazer.
- Você está linda querida – diz a criatura horrenda à sua frente – Poderíamos ter uma linda noite hoje não é? Vou fazer diferente com você minha querida, afinal, você é minha convidada de honra. Vamos nos divertir primeiro. Está com fome? - Anny acena afirmativamante com a cabeça, apavorada demais para emitir qualquer som. Anny o observa subir as escadas e trancar a porta, deixando o ambiente absolutamente silencioso.
Tenta raciocinar, o que Lian faria, passa os olhos pelas paredes tentando encontrar um fiozinho de esperança. Percebe uma minúscula janela, no alto da parede. Com muito cuidado, tenta alcança-la, percebe que apesar de pequena, talvez consiga passar seu corpo por entre o mínúsculo espaço. Neste momento, agradece os apelidos de gazela, o corpo esguio e magérrimo, conquistado com noites e noites escrevendo, entupindo-se de café e cigarros. Com muito esforço consegue esgueirar-se pela janelinha, mesmo o raspar do seu corpo contra o reboco da parede, causando lacerações em sua pele, não a detém, sabe que essa é sua única chance.
Quando se vê finalmente livre, corre em direção ao seu veículo. Dá graças pela sua personalidade absolutamente descuidada, as chaves estão na ignição. Dá a partida, com uma mistuira de alívio e desespero, quase ainda pode ouvir a voz da aberração.
Alguns quilômetros depois, Anny encontra duas viaturas da Polícia rodoviária. Estaciona bruscamente o carro, chamando a atenção dos oficiais. Sai do veículo, suas roupas rasgadas e sangrando pelas lacerações obtidas durante a fuga.
Os oficiais imediatamente correm até ela. O mais jovem, consegue ampará-la. Anny olha fixamente em seus olhos, e já delirando, vê Lian. Com um sorriso nos lábios, Anny desmaia, deixando ambos os oficiais sem entender absolutamente nada.
Anny acorda num pulo, corpo molhado de suor, tentando controlar sua respiração. O mesmo pesadelo de sempre e o que mais lhe incomoda é que lembra-se apenas das últimas cenas, a cabeça de Lian rolando no chão, flashs de um quarto escuro, os policiais.... simplesmente não consegue juntar as peças, quantas vezes mais vai aguentar? Anny se pergunta isso toda a noite. Toma o frasco de comprimidos calmantes nas mãos, com uma sensação de Dejavú, enche a palma da mão e por alguns minutos pensa na quantidade que intencionava tomar, devolve alguns ao frrasco, mantendo somente três na palma da mão. Engole – os de uma só vez, empurrando – os goela abaixo com um copo de água.
Volta
os olhos para a cabeceira da cama, um manuscrito seu. Havia – o
iniciado na noite anterior, apenas um primeiro capítulo. Seu editor
havia encomendado um romance policial, com algum Serial Killer, uma
mocinha indefesa e um policial brutamonte. Sangue e paixão, “Receita
de sucesso”, dissera John, seu editor.
Anny
não concordava, seus romances normalmente falavam das agruras do
amor, das dificuldades que as almas tem de se encontrarem.
Desencontros, na verdade esse era o tema principal, em quase todos os
seus livros.
- Pesadelos de novo querida? - Anny
olha a silhueta parada à porta, a luz fosca do abajur o torna mais
belo ainda. Corpo moreno, aqueles olhos que possuem para Anny, um
poder muito maior que qualquer calmante.
É
Lian. Anny lembra da cena de seu sonho, tantas vezes repetido, que
quase consegue ver sua cabeça, rolando inerte, ao lado do carro.
Esfrega os olhos com as palmas das mãos, como se tentando afastar a
imagem horrenda que a persegue.
- Ah amor, eu gostaria de saber como pará-los, não sei porquê minha
mente insiste em me torturar dessa forma. Eu...simplesmente não sei
o que fazer ….. - Lian coloca-se ao seu lado e a toma em seus
braços, aninhada, como querendo tomar-lhe a dor. Tinha essa
capacidade, tomar-lhe a dor, confortar, amparar. Talvez por isso
Anny o amasse tanto. Realmente não saberia como viver sem ele.- Conseguiu terminar a tal “Receita de sucesso”? - Lian, havia recém-chegado, trabalhava no departamento de perícias da Polícia. Seu trabalho tinha horários, digamos, nada convencionais. Talvez isso também os ajudasse, porque raramente Anny usava a madrugada para dormir mesmo.
- Não, só um primeiro capítulo que, na minha opinião ficou muito ruim.
- Que é isso querida. Garanto que será um “Bestseller”, mas agora que tal deixar o toque do teclado do seu computador por um toque, digamos, mais “interessante”? - Anny percebe as mãos de Lian a envolvendo, dissipando de sua mente todas as imagens ruins que a assombravam.
- Hummmm......gostei.....posso editar essa obra quantas vezes quiser? - diz Anny, lançando -lhe um olhar malicioso.
- Claro, minha escritora favorita, me entrego em tuas mãos.
Ao som dos carros a passar na rodovia, fazem amor com a fúria e a docilidade de qualquer apaixonado, caindo exaustos, ao mesmo tempo que lá fora, o sol nasce e devagarinho levanta-se no céu.
Lian levanta-se, meio sonolento e observa a linda mulher deitada ao seu lado, serena, dormindo profundamente. Pega em mãos o manuscrito, já meio rabiscado pelas diversar correções, percebe que Anny teve algumas dificuldades para escrevê-lo.
- Então? O que achou? - Lian se vira, percebendo os olhos reprovadores de Anny. Sabe que ela não gosta que leiam seus trabalhos, antes de concluí-los e revisá-los umas duzentas vezes pelo menos.
- Ah.....desculpe Anny - responde Lian, com um meio sorriso - Não pude resistir.
- Tudo bem....e então...? - questiona Anny, ainda tentando acordar
- Ah....está no começo ainda não é? Não dá para dizer?
- Está horrível...já entendi.. - diz Anny sorrindo – Não consigo entender porquê Jonh quer um erredo estúpido desses.
- Bom...e já deu um título para ele?
- Sim.....pelo menos isso já consegui definir. Nem sei de onde, mas foi a primeira coisa que me veio a cabeça, antes mesmo de começá-lo.
- E qual é? - questiona Lian
- Porquê quer saber? Nem sei se irei terminá-lo... - Anny responde, levantando-se enrolada em seu lençol e já acendendo um cigarro.
- Ah...fala...quero saber.
- Ok...- diz Anny voltando para buscar a toalha e dando um beijo demorado em seu amado. - É “Dia ruim em Anland”.
Por Alyne Luz
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Esperança
Eu acredito em palhaço
Sorriso solto, medo escondido entre o nó da gravata de laço
Vira, pula, cai levanta, vibra, corre, chora, canta
Malabares, Cambalhotas, gargalhadas, giros no espaço
Eu acredito em palhaço
Pedaços soltos de lembranças pintados no sorriso aberto
Aquela risada gostosa, que se solta só na infância
Tem a estrada como casa, sem endereço, rumo incerto
Eu acredito em palhaço
Que mesmo de nariz falso, tem a verdade nos olhos
Vê do picadeiro a vida, espera o fim do espetáculo
Aguardando por sorrisos, ansiando por aplausos
Eu acredito em palhaço
Que ri dos seus próprios medos, escondendo seus segredos no
buraco do chapéu
a imagem da esperança num sorriso de criança, salta, corre,
cai, balança
se equilibra, chora, dança, pula alto e nem se cansa,
tentando alcançar o céu
Eu acredito em palhaço
Porque ainda guardo aqui, bem fundo do meu peito, um
pouquinho de criança
Se por um instante esqueço, dessa vida tão maluca, me lembro
desse tesouro
Chaveado na gaveta,
embrulhado nos meus sonhos, na caixinha da esperança.
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