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sábado, 25 de maio de 2013

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

2062


Lia desperta. Ainda meio zonza tenta localizar-se. Lembra-se de onde está, porém o sonho ainda lhe parece tão vívido, quase pode sentir o cheiro do cafezinho, emanando do bule que fervia na cozinha da casa de sua Avó. Por um breve momento, chegou a confundir-se.

 - Lia Anderson, você tem vinte minutos para aprontar-se. Seu banho já está preparado – diz uma voz feminina e familiar.

Lia resolve então levantar-se. Aciona o botão do controle de sono, lateral a cama. O capacete virtual que envolvia sua cabeça dissípa - se no ar. Lembra-se que o havia programado para sonhar com a antiga casa de sua Avó, da qual tinha muitas lembranças boas.

Põe-se sentada à beira da cama, ouvindo o aviso de sua secretária virtual, a qual Lia batizou singelamente de “Beth”, pois, mesmo que apenas uma projeção computadorizada, gostava de imaginá-la como uma pessoa pela qual teria apreço.

 - Beth querida, bom dia para você também. Sol, por favor - Diz espreguiçando-se - Hoje gostaria de um belo dia ensolarado.

Beth programa o controle de “Dia personalizado”, e um belo céu azul, limpo e claro surge na parede branca e fria.

Lia encaminha-se para o seu banho matinal. Posiciona-se centralizadamente no interior do Box de vidro azul escuro, levanta o rosto e a um comando de sua voz, um jato de vapor, numa temperatura bem agradável, surge da canalização da parede, umedecendo seu corpo. A um segundo comando, um novo jato de vapor, agora providencia a secagem. 

Lembra-se do sonho, das toalhas macias de sua Avó com flores bordadas, roçando em sua face.  Lia lembra-se, que ainda na época de sua mãe, baniram-se as toalhas, ao mesmo tempo quase, que o uso da água nos banhos.

Aliás, quase tudo que envolvia o uso da água para algum uso, que não o de exclusiva sobrevivência, foi banido ainda em 2036, tinha na época cinco anos, mas lembra-se bem.

Sai nua do chuveiro, encaminha-se ao seu quarto para vestir-se, mais um dia de trabalho. Todas as roupas, embora muito funcionais, tem prazo de validade bem curto, 24 horas. Ao final de cada dia, são descartadas.

Lia opta por um modelo simples, com corte reto e confortável, perfeita para um dia inteiro de trabalho.

Levanta os braços e ao seu comando, um laser de cor azulada corre por seu corpo nu, construindo, numa fração de segundos, o modelo escolhido, bem como a maquiagem suave.

Lia dá uma última olhadela no visual, e encaminha-se ao transportador.

Em sua época, quase não existem mais veículos, e os poucos que existem são de pessoas que podem dar-se a esse luxo, e esse, definitivamente não era o seu caso. As pessoas comuns utilizam os Transmol’s, Transportadores Intermoleculares de curto Espaço.

Sua Avó com certeza faria graça desse nome. Mas são equipamentos muito úteis, que poupam tempo e dinheiro de quem os utiliza.

O que ocorre é o transporte, molécula por molécula de um lugar a outro em nano segundos.  Pode-se ir a qualquer lugar dentro do perímetro estadual. Para viagens mais longas, é necessário ir até a CETTI, Central de transbordo para Transporte Intermolecular. Não existem passaportes, todos os seres vivos (ou até virtuais) portam chips de identificação, os quais são inseridos na córnea logo após o nascimento.

Mas somente para àqueles classificados como classe média, média alta, alta, e os chamados RASD (Raça super desenvolvida), estes últimos herdeiros dos Campos do Centro da Terra. 

As pessoas de condições pobres a miseráveis, quando ainda não castradas, são escaneadas e cuidadosamente examinadas. Se constatado qualquer indício de pré – disposição a algum tipo de doença, física ou psíquica, são encaminhados ao chamado “Campo da Misericórdia”, alguns mais graves para extermínio e outros, com alguma possibilidade de futuro, para tratamento prévio.  Estes Campos são sustentados por Grupos religiosos específicos, com apoio do governo.

Na verdade, Lia sabe que a maioria nem passa por essa classificação, pois os meios de extermínio custam muito menos à sociedade, do que os meios de recuperação.

Aliás, Lia acredita que essa é uma premissa histórica, que vem bem antes dos novos tempos, só que antigamente era feito de forma mais velada: Os mais pobres acabavam exterminados naturalmente, pelas doenças, pela inanição, enfim por condições realmente miseráveis.

Em meio aos seus devaneios, Lia chega ao seu local de trabalho. Lia trabalha numa indústria farmacêutica. Um dos ramos de maior crescimento nas últimas décadas.

Com o passar dos anos e o processo de deterioração do meio – ambiente, da escassez de água no planeta, seguindo – se das guerras pela posse das poucas nascentes de água ainda existentes e das epidemias que se seguiram, a indústria farmacêutica mundial teve um “bum” semelhante ao da indústria automobilística no passado.

Com o processo constante de desidratação e as tentativas frustradas da produção de uma água artificial e industrialmente criada, surgiram várias novas doenças.

Além disso, as constantes mudanças climáticas, o declínio da proteção atmosférica contra os raios solares, causaram a proliferação da procura por cosméticos antienvelhecimento, agora renomeados para CRUHP’s, Cremes de ultra - hidratação progressiva.

Lia também os usa, claro que por questões estéticas, mas principalmente por questões de sobrevivência, pois a desidratação é uma das principais causas de morte no mundo, duas horas de exposição direta ao sol, pode acarretar sérias conseqüências no ano de 2062.

Por isso, talvez também o Transmól’s, tenham se disseminado tanto. As pessoas dificilmente vão às ruas, pois além dos perigos atmosféricos, existem os ataques, a exposição às doenças etc...

Todo estabelecimento comercial, público e mesmo a maioria das residências existentes, possui um Transmól’s.

Na verdade, o que acaba gerando algum congestionamento, muitas vezes são necessários vários minutos para conseguir-se uma conexão.  O que para os habitantes destes novos tempos, é muito, pois a expectativa de vida foi reduzida para os cinqüenta anos, então, tudo deve ser muito acelerado. Carreiras iniciam aos dez anos de idade, quando as crianças passam à puberdade.

Lia tenta concentrar-se em seu trabalho, que na verdade nada mais é que um cargo administrativo qualquer.  Estudou apenas até a segunda pós - graduação, o que na atual conjectura, não significa quase absolutamente nada. Já passou dos trinta, então, em cinco ou seis anos, poderá aposentar-se.

No momento, Lia conta os dias para suas férias de verão. Vem guardando dinheiro há meses, para a tão sonhada viagem a um Resort, no Centro da Terra.

Aliás, destino esse de quase todas as pessoas com alguma condição financeira (ou como no caso de Lia, com algumas economias guardadas ao longo do ano).

Lia leu muito sobre o lugar, pesquisou inclusive na literatura clássica. Desde os devaneios de Júlio Werner, a descoberta da possibilidade de exploração, até a disputa territorial sangrenta, ocorrida entre a França e os Estados Unidos, pelos direitos de exploração do território descoberto.

A França alegava que Werner havia sido o descobridor original e os Estados Unidos alegava que a sua equipe de cientistas é que havia feito a descoberta.

Lia não entendia muito de política, mas no seu entendimento, a verdade é que os cientistas americanos, baseados nos contos fantásticos de Werner, (agora considerado não apenas um autor fantástico, mas um visionário, alguns o denominaram até profeta), acabaram por decidir investir na possibilidade de que suas fábulas, fossem verdadeiras e como “Colombo”, descobriram um continente inteiro, com fauna, flora e diversos recursos naturais, que muito embora tão limitados quanto seu exterior, poderiam sim ser explorados.

E é óbvio que alguém teria que explorá-lo e não seria nenhum “Dalai Lama”, pronto a dividir honestamente com o restante da humanidade. O mundo é dos vivos, já dizia a avó de Lia, e ela considerava esse, um dos seus ditados favoritos.

Passam-se as horas, Lia percebe que já está faminta, aproxima-se da hora do almoço. Encaminha-se então ao refeitório, para receber sua dose diária de alimento.

No processo de bloquear qualquer tipo de uso da água que não para consumo, a prática do ato de alimentação foi se modificando. Hoje, os “operários” como Lia, acomodam-se em cadeiras confortáveis e geladas de um couro absolutamente sintético. A um comando seu, o capacete virtual materializa-se em suas cabeças. Em segundos, percebem-se ao redor de uma grande mesa farta e cuidadosamente decorada, em meio a um jardim de Begônias.  Na sala fria, uma agulha posicionada lateralmente à poltrona, é inserida em seus pescoços, ao mesmo tempo, que o capacete é materializado. Em seguida, um líquido verde escuro, é bombeado para dentro de seus corpos por alguns minutos. Satisfeita, Lia retorna ao seu posto, para mais algumas horas de trabalho.

Hora de ir para casa, Lia está exausta, louca para um banho e uma cama quentinha. 

Encaminha-se ao Transmól, enfrentando a fila de operários que se segue. Em menos de meia hora, o que na sua época é tempo demais, Lia está em casa. Após um banho, Lia aciona o sistema de vestimenta a laser, trocando seu alinhado look, pelo velho pijama.

As necessidades fisiológicas também foram suprimidas, posto que a alimentação é completamente absorvida pelo organismo, simplesmente não há o que excretar. Com isso, alguns órgãos também acabaram  praticamente inutilizados, o que também acarretou o surgimento de várias novas doenças. A inoperância do organismo, também mostrou - se prejudicial.

Por isso, algumas vezes por semana, Lia se submete a um tratamento específico, para manter todos os seus órgão ativos, ou pelo menos, espera que isso os mantenha.

Lia conclui que talvez esse seja o maior dos males do novo século: a inoperância.

Inoperância física, emocional, intelectual. Tudo está pronto, vem enlatado, virtual e sem nenhum esforço. Suas relações de amizades são restritas e talvez, possua maior intimidade com sua secretária virtual do que com seus amigos reais.

Lia lembra-se das histórias contadas por sua avó, sobre sua época de infância. Um tempo em que se “ficava”, em que as redes de relacionamento virtual estavam ainda engatinhando e o contato humano era necessário. Em que a música era produzida por pessoas de verdade, com instrumentos de verdade, imperfeita, dissonante, mas com sentimento.

Lembra-se de um comentário da avó certa vez, de que na sua época, as pessoas comuns, de poucas posses, andavam de “ônibus”, um veículo motor, que comportava um número x de passageiros e transitava em qualquer via. Lembra que a avó dizia, com um certo ar de nostalgia, que não entendia o porquê, mas nos ônibus as pessoas sentavam-se umas ao lado das outras, tomando um cuidado máximo de não cruzar olhares, e que isso era constrangedor.  Quando Lia questionava o porquê desse comportamento humano, sua avó lhe respondia com um sorriso:

 - Medo, minha querida. As pessoas têm medo de se manifestar, de se envolver, de se mostrarem fracos e vulneráveis com um simples sorriso. Não apaixonam - se por medo de sofrer, não têm filhos, por medo de não serem pais perfeitos, não se casam por medo de uma separação, não mudam de emprego por medo do fracasso, não comem o que gostam por medo de engordar, não mudam de cabelo por medo de não se gostarem. Medo minha querida, é a engrenagem que move a humanidade.

Lia ainda hoje, concordava com sua Avó, só que hoje, o medo evoluiu, cresceu e com o passar do tempo, foi engessando os seres humanos.

 Hoje, é esse mesmo sentimento, fortificado e evoluído, ao qual Lia chama de “inoperância”.

Pronta para dormir, já aninhada na cama, Lia aciona o capacete virtual, programado para sonhar com sua Avó, um pouco de alívio para seus dias de desespero e incoerência.

- Olá querida – diz a voz encorpada e conhecida - O que vamos fazer hoje?

Lia pára por um instante e pensativa responde:

- Podemos andar de ônibus Vovó?

Num instante, percebe-se sentada, ao lado de sua Avó, mirando a paisagem passando rapidamente pela janela. Do outro lado do corredor, um senhor de olhos muito azuis sorri. Lia vê sua avó retribuir o sorriso e iniciar um papo sobre as condições do Clima e sobre bolos de chocolate.  
 - Ativa e operante, sem medo de ser feliz. – Pensa alto Lia -  Pelo menos em meus sonhos.

Dia Ruim em Anland


Anny tenta ajeitar-se no diminuto espaço do porta – malas. Não é pequena, 1,70 de altura, então de nenhuma forma conseguiria não sentir dor naquele aperto. Além disso, a mordaça em sua boca a sufoca, tenta buscar o ar e vê tudo a sua volta girar. O ronco do motor de seu carro, sonoro e familiar, lembra-se de que devia tê-lo mandado regular. Tenta concentrar-se, pensa que se desmaiar, pode não acordar. Tenta repassar esse dia em sua mente, buscando compreender o que acontece e se manter raciocinando.

Lembra-se que acordou por volta das 7h30 da manhã de hoje, foi até o portão com seu pijama rosa quadriculado de flanela, recolheu o jornal e as correspondências, nada de muita importância. Porém, ao passar o olhos por contas e infinitas propagandas, chama-lhe a atenção um envelope pardo, sem identificação alguma.

Anny exita por um segundo. Sabe que não pode ter sido entregue pelos correios, posto que não possui identificação alguma. Algum admirador secreto? Anny sorri, por um instânte, pensando na possibilidade. Não podia deixar de sentir-se lisonjeada se o fosse. Não era hipócrita e sentiria-se satisfeita, como qualquer mulher sentiría-se, se algum vizinho estivesse interessado na sua pessoa, mesmo que fosse comprometida.

Abre o envelope bem lacrado, com um certo cuidado e bem devagar puxa uma folha branca, com letras coladas. Um arrepio gelado corre por seu corpo e sente no mesmo instânte, o suor brotando do meio de suas costas, enquanto conclui a leitura: “Cara Anny, não pense que eu não irei atrás de você....sei tudo sobre você, assim como sabe sobre mim. Em breve nos encontraremos”.

Anny percebe sua respiração suspensa.

  • Como assim? O que isso quer dizer? Eu sei....sei o quê? Eu não sei de nada que....- Anny respira fundo, tentando acalmar-se
    – Ok, Anny Louise Anderson, sem pânico. Deve ser algum maluco sem nada para fazer, só isso, um maluco idiota, fazendo uma brincadeira idiota. - Anny deposita a carta sob a mesa e encaminha-se para o seu banho matinal.

  • Algumas horinhas na banheira me farão bem....- diz alto Anny, como tentando convercer a sí mesma.

Anny entra na banheira repleta de espuma. Coloca uma toalha branca para proteger a cabeça da superfície gelada da banheira. Tenta concentrar-se no que lhe parece o mais importante no momento: seu novo livro.

Começou a tecer a teia da trama há algumas semanas, mas de uma hora para outra, parece-lhe que uma cortina negra desceu sob seu cérebro. Simplesmente não consegue escrever. Tentou Yoga, Taichi, chocolate, anti – depressivos, mas nada, absolutamente nada tirou-lhe esse bloqueio. Anny sabe, ou pelo menos quer acreditar, que isso é momentâneo e que logo, logo estará vertendo ideias pelos poros, como sempre.

Já enrolada na toalha, pôe-se a frente do espelho com uma pinça.
Malditos pelos.... - Anny esbraveja, arrancando algumas penugens do buço - Qual o sentido da sua existência?A vibração do seu telefone, em cima do balcão do banheiro, a obriga a largar sua pequena sessão de tortura mamtinal.
 - Alô..... - Anny pára, tentando ouvir o silêncio que se segue no outro lado da linha.
 - Alô...Alguém aí... Olha eu tenho um identificador de chamadas, se isso for um trote é melhor se preparar, porque eu vou enfiar esse telefone pela sua.....
 - Olá querida Anny. Recebeu minha cartinha? - diz uma voz masculina do outro lado da linha.

Anny tenta controlar sua aflição. Na verdade no instânte em que atendeu o telefone, soube do que se tratava. O silêncio, a respiração compassada do outro lado, sabia que não poderia ser um simples engano.
- Te deixei fazer o que quis até agora...- disse a voz misteriosa – expondo minha vida, me colocando como aberração de circo para deleite dos seus fãs - Anny tentava raciocinar, mas o chão parecia tremer sob seus pés, com receio de desmaiar naquele instânte, Anny tenta manter-se o mais calma possível – Ainda está aí Anny? Anny? - Anny respira fundo, tentando não demonstrar seu desespero
- Estou....e não sei do que você está falando....quem é..e...que tipo de brincadeira estúpida está querendo fazer comigo. Mas aviso...meu namorado é polícial e não vai exitar em chutar esse seu traseiro, daqui até o Congo, seu idiota maníaco.     
- Ooo, a sim, claro, o príncipe de jaqueta surrada e trejeito canastrão. O conheci e sabe Anny, ele..........manda lembranças.

Anny sente como se levasse um soco na boca do estômago. Tentando manter o raciocinio, diz pra sí mesma que o maldito filho da mãe está blefando, é só um idiota, Lian nunca seria pego tão facilmente, não o seu Lian.
- O que foi Anny? Perdeu a fala? Aaaa.. isso só pode ser sintoma de saudade contida. Quer falar com ele? Adoro unir casais apaixonados. Olha só querido Lian, sua namoradinha quer dizer alô...
 - Anny, diz pra sí mesma que o desgraçado só pode estar blefando, mas aproxima mais ainda o aparelho do ouvido.
- Anny.....- Anny sente a força fugir-lhe do corpo, deixa-se cair devagar, escorando-se à parede. O desespero toma conta de sua mente – Seja o que for que ele lhe peça, não ceda Anny...ah... - Anny ouve um som seco de alguma coisa dura batendo e a voz de Lian sumindo do outro lado da linha.
       - Podemos conversar agora, cara Anny? - novamente aquela voz, Anny sabe que nunca mais irá conseguir esquecer-se dela.
-  Por favor....seja lá quem for você, ou o que queira de mim....só não o machuque.....por favor - Anny agora já não conseguindo controlar-se mais, implora ao estranho.
 - OK, acho bem justos os seus termos. Então vamos fazer o seguinte....eu deixo o morenão aqui, com digamos, apenas alguns arranhões...afinal, há de concordar comigo que ele não é uma caça assim tão “fácil”. Mas em contrapartida.....- Anny ainda tenta raciocinar, medir, pesar o que quer que ele peça, sabe que fará, pois realmente ama Lian, não conseguiria viver sabendo que poderia ter feito alguma coisa para salvá-lo e não o fez. - Você vai pegar o seu carro.... - continua a voz do outro lado, Anny tenta concentrar-se para ouvir as instruções- vai dirigir até o velho galpão da antiga Central Distribuidora de Bebidas, perto da rodovia principal e parar. Aguarde até que eu faça contato. A querida...., te aconselho a agasalhar-se, está bem frio aqui fora.
- Quanto você quer....- Anny tenta ganhar tempo, pensando em como Lian agiria nesse caso.
 - Quanto?...Querida, acha mesmo que me daria todo esse trabalho por ..dinheiro? - Lia percebe o tom de voz do estranho mudar da indiferença para uma explosão de raiva - Sua garota estúpida e fútil, não quero o seu dinheiro, quero que se dane. Que sofra tudo que eu sofri. Aliás...quanto foi a vendagem do seu último livro? Alguns dígitos acredito.....Pois eu, reivindico a minha parte nesse lucro, só que quero em espécie....aliás, o seu lindo corinho alvo. Anny ouve o som do telefone desligado por alguns segundos, tentando fazer sua alma retornar para o seu corpo.
Em choque, senta-se no chão e sem a mínima ideia do que fazer, apenas chora.
Tentando refazer-se, certa de que precisa ajudar Lian, encaminha-se para o armário no banheiro, pega um vidro branco de calmantes, enchendo a palma da mão. Pensa por alguns minutos na quantidade que estava decidida a tomar e decide tomar apenas três pílulas, não pode estar grogue, não poderia ajudar Lian assim.
Pega as chaves do carro, um casaco cinza de pura lâ italiana, o primeiro que encontrou pendurado na saída da porta e sai, batendo a porta às suas costas e certa de que essa noite, mudaria sua vida para sempre, e ela sinceramente rogava que Deus lhe concedesse mais uma chance, para sí mesma e para Lian.
  Anny pára no acostamento da rodovia, em frente a antiga Distribuidora, conforme orientação. Tensa, olha para os lados, tentando visualizar alguma coisa, ou, qualquer coisa que pudesse identificar.
Tenta juntar as peças do quebra – cabeça. O sequestrador se referiu ao seu último livro. Um romance sobre um serial Killer, bem ao seu estilo. Aliás, Anny inicialmente havia menosprezado esse manuscrito, por o considerar de pouco vendabilidade. Por pouco não o havia incinerado, mas seu editor, num jantar em sua casa, o havia resgatado da lixeira. Anny não se importou, apenas o teria alertado de que aquela não era uma boa história. Ao que o seu editor respondeu com uma risada sarcastica que essa questão, de avaliar a vendabilidade ou não de uma obra, era sua e não de Anny.       No dia seguinte, muito cedo ainda, ele pareceu na porta de Anny, com o manuscrito na mão e um brilho nos olhos que Anny conhecia bem.
 - Vamos editá-lo, é uma obra prima!!. -  Anny, nem tentou argumentar, sabia que com John, isso não funcionaria. Quando enfiava uma ideia na cabeça, não havia quem conseguisse demovê-lo
- OK – disse-lhe Anny – Mas se esse for o fim da minha carreira como escritora, saiba que cortarei meus pulsos e virei puxar seus pés a noite John, não tenha dúvida disso.
Mas não foi. “Dia ruim em Anland” foi um sucesso absoluto de vendas. Nem Anny acreditava naquilo. Como pode uma obra absolutamente irrelevante, com um enrredo sem grandes maravilhas literárias, tornar-se um sucesso de vendas e pior, o maior sucesso seu até hoje, diga-se de passagem. Isso realmente a perturbava. Ou suas obras eram tão insignificantes a ponto de ficarem abaixo dessa, que já achava ser insignificante, ou o nível cultural dos seus leitores vinha em um declínio constante. Anny não sabia dizer qual opção seria a mais desesperadora, enquanto escritora.
Mas voltemos a obra. A história contava sobre um serial Killer nos dias atuais, que roubava inicialmente roupas das mulheres que pretendia assassinar. Depois, as sequestrava, torturava e finalmente as matava, com as próprias mãos. Vestia seus cadáveres com a roupa que havia anteriormente roubado e passava dias em seu velho porão, dançando ao som de Willie Nelson com seus cadáveres.
De repente Anny ouve um barulho próximo a traseira do carro, como o som de uma pedra batendo contra a lataria.
Decide sair, afinal já que veio até aqui, de que adiantaria permanecer dentro do carro. Lentamente sai do veículo, observando o imenso breu à sua volta. O silêncio ensurdecedor daquela paisagem, congelava até os pelinhos do seu nariz. Com passos receosos, rodeia o veículo, tentando identificar o que teria batido na lataria. Parando pouco atrás do lado esquerdo do carro, percebe alguma coisa no chão. Aproxima-se um pouco mais, a escuridão da noite é muito grande. Apanha o celular do bolso, tentando identificar o objeto redondo e negro no chão, semelhante a uma bola. Mira a luz do celular e com o pé, tenta remexer o objeto.
- Meus Deus ! - grita Anny desesperada com a cena que visa. A cabeça de Lian, com olhos vidrados de desespero – sente alguém aproximar-se por trás e antes que tivesse tempo de virar-se, sente sua boca sendo tampada e perde os sentidos, ouvindo como se estivesse muito longe, a mesma voz que ouvira no telefone.
 - Deus não vai te ajudar agora Anny. Agora somos eu e você. O sequestrador a toma em seus braços, observando-a por alguns instântes. Abre o porta malas, colocando-a delicadamente dentro do pequeno espaço. Como quem coloca para dormir uma criança e sorrindo fecha a porta do porta – malas do carro de Anny, entra e dá a partida, deixando para trás a cabeça de Lian, separada do corpo, no acostamento da rodovia.
Anny, remexe-se tendando acomodar-se no pequeno espaço de seu porta -malas. Aos poucos vai recobrando os sentidos e lembrando-se da cena que se seguiu. Tenta gritar, quando percebe a mordaça que tampa-lhe a boca. Percebe que suas mãos e pés estão amarrados e para seu desespero, ainda se percebe nua.
 - Pronta minha querida – diz a voz que Anny jamais esquecerá , do lado de fora do carro.
- Anny, esbraveja resmungando, em parte por medo em parte por raiva do desgraçado que acabou com a vida de Lian.
De repente tudo fica muito quieto do lado de fora e Anny pára tentando entender o que se passa. A porta se abre e Anny pode visualizar o rosto do seu algóz, tornando ainda maior o seu desespero. Anny não só era uma excelente escritora, mas também fazia as suas próprias ilustrações, como em seu último livro, que estampava na capa, o rosto do seu personagem principal, o serial killer de “Dia ruim em Anland”, olhos azuis, rosto alvo, cabelo alinhado como um ator de propaganda de margarina. Anny nunca entendeu porquê aquele “tipo” veio-lhe a mente, mas achou interessante esse contra ponto entre o “belo” e a “fera”, meio a lá “Dorian Grey”. Mas agora, já não achava mais graça alguma, pois o filho da mãe que havia decapitado Lian e a sequestrado, era sem dúvida a projeção real da sua fantasia. O monstro de carne e osso que Anny havia ilustrado para a capa de seu livro, materializava-se à sua frente, como num dos seus contos de horror. Só que apavorantemente real.
O estranho venda- lhe os olhos. Anny percebe que ele a envolve em alguma espécie de cobertor, passam por um campo, por uma casa, uma porta que range vertiginosamente ao entrarem. Novamente uma escada, agora que segue para baixo. Sente por trás da venda que é um lugar muito escuro, com um odor desagradável, que Anny não consegue distinguir.
 - Sente-se - Anny sente a mão dele em seu ombro, a empurrando, forçando-a assentar-se, semi nua sob uma superfície macia, mas gelada.
Ele retira-lhe a venda. Anny percebe onde está. É um porão, sujo, escuro e úmido. Com apenas uma lâmpada, enchendo de sombras os espaços, tornando a cena ainda mais assustadora.
- Vista-se - Ele lhe entrega uma caixa. Anny não tem forças para qualquer negativa. Apenas abre a caixa. Um vestido azul de seda, muito parecido com um dos seus. Aliás um dos seus que há algum tempo não encontrava mais. Lembrava-se de o ter enviado a lavanderia, mas não de tê-lo guardado novamente e …..Anny finalmente compreende. O desgraçado pensa que é o seu personagem, o que só faz seu pavor aumentar mais e mais, pois além de um maníaco homicida que decepa cabeças, agora Anny se dá conta de que está na companhia de um “fã” maníaco homicida, que pensa que é o pior serial Killer que já existiu, fugido de um dos seus próprios livros de horror idiotas
Anny veste a sua própria roupa roubada, tentando ganhar tempo e raciocinar sobre o que fazer.
 - Você está linda querida – diz a criatura horrenda à sua frente – Poderíamos ter uma linda noite hoje não é? Vou fazer diferente com você minha querida, afinal, você é minha convidada de honra. Vamos nos divertir primeiro. Está com fome? - Anny acena afirmativamante com a cabeça, apavorada demais para emitir qualquer som. Anny o observa subir as escadas e trancar a porta, deixando o ambiente absolutamente silencioso.
Tenta raciocinar, o que Lian faria, passa os olhos pelas paredes tentando encontrar um fiozinho de esperança. Percebe uma minúscula janela, no alto da parede. Com muito cuidado, tenta alcança-la, percebe que apesar de pequena, talvez consiga passar seu corpo por entre o mínúsculo espaço. Neste momento, agradece os apelidos de gazela, o corpo esguio e magérrimo, conquistado com noites e noites escrevendo, entupindo-se de café e cigarros. Com muito esforço consegue esgueirar-se pela janelinha, mesmo o raspar do seu corpo contra o reboco da parede, causando lacerações em sua pele, não a detém, sabe que essa é sua única chance.
Quando se vê finalmente livre, corre em direção ao seu veículo. Dá graças pela sua personalidade absolutamente descuidada, as chaves estão na ignição. Dá a partida, com uma mistuira de alívio e desespero, quase ainda pode ouvir a voz da aberração.
Alguns quilômetros depois, Anny encontra duas viaturas da Polícia rodoviária. Estaciona bruscamente o carro, chamando a atenção dos oficiais. Sai do veículo, suas roupas rasgadas e sangrando pelas lacerações obtidas durante a fuga.
Os oficiais imediatamente correm até ela. O mais jovem, consegue ampará-la. Anny olha fixamente em seus olhos, e já delirando, vê Lian. Com um sorriso nos lábios, Anny desmaia, deixando ambos os oficiais sem entender absolutamente nada.
Anny acorda num pulo, corpo molhado de suor, tentando controlar sua respiração. O mesmo pesadelo de sempre e o que mais lhe incomoda é que lembra-se apenas das últimas cenas, a cabeça de Lian rolando no chão, flashs de um quarto escuro, os policiais.... simplesmente não consegue juntar as peças, quantas vezes mais vai aguentar? Anny se pergunta isso toda a noite. Toma o frasco de comprimidos calmantes nas mãos, com uma sensação de Dejavú, enche a palma da mão e por alguns minutos pensa na quantidade que intencionava tomar, devolve alguns ao frrasco, mantendo somente três na palma da mão. Engole – os de uma só vez, empurrando – os goela abaixo com um copo de água.

Volta os olhos para a cabeceira da cama, um manuscrito seu. Havia – o iniciado na noite anterior, apenas um primeiro capítulo. Seu editor havia encomendado um romance policial, com algum Serial Killer, uma mocinha indefesa e um policial brutamonte. Sangue e paixão, “Receita de sucesso”, dissera John, seu editor.

Anny não concordava, seus romances normalmente falavam das agruras do amor, das dificuldades que as almas tem de se encontrarem. Desencontros, na verdade esse era o tema principal, em quase todos os seus livros.
- Pesadelos de novo querida? - Anny olha a silhueta parada à porta, a luz fosca do abajur o torna mais belo ainda. Corpo moreno, aqueles olhos que possuem para Anny, um poder muito maior que qualquer calmante.

É Lian. Anny lembra da cena de seu sonho, tantas vezes repetido, que quase consegue ver sua cabeça, rolando inerte, ao lado do carro. Esfrega os olhos com as palmas das mãos, como se tentando afastar a imagem horrenda que a persegue.
- Ah amor, eu gostaria de saber como pará-los, não sei porquê minha mente insiste em me torturar dessa forma. Eu...simplesmente não sei o que fazer ….. - Lian coloca-se ao seu lado e a toma em seus braços, aninhada, como querendo tomar-lhe a dor. Tinha essa capacidade, tomar-lhe a dor, confortar, amparar. Talvez por isso Anny o amasse tanto. Realmente não saberia como viver sem ele.
 - Conseguiu terminar a tal “Receita de sucesso”? - Lian, havia recém-chegado, trabalhava no departamento de perícias da Polícia. Seu trabalho tinha horários, digamos, nada convencionais. Talvez isso também os ajudasse, porque raramente Anny usava a madrugada para dormir mesmo.
 - Não, só um primeiro capítulo que, na minha opinião ficou muito ruim.
 - Que é isso querida. Garanto que será um “Bestseller”, mas agora que tal deixar o toque do teclado do seu computador por um toque, digamos, mais “interessante”? - Anny percebe as mãos de Lian a envolvendo, dissipando de sua mente todas as imagens ruins que a assombravam.
 - Hummmm......gostei.....posso editar essa obra quantas vezes quiser? - diz Anny, lançando -lhe um olhar malicioso.
 - Claro, minha escritora favorita, me entrego em tuas mãos.
Ao som dos carros a passar na rodovia, fazem amor com a fúria e a docilidade de qualquer apaixonado, caindo exaustos, ao mesmo tempo que lá fora, o sol nasce e devagarinho levanta-se no céu.
Lian levanta-se, meio sonolento e observa a linda mulher deitada ao seu lado, serena, dormindo profundamente. Pega em mãos o manuscrito, já meio rabiscado pelas diversar correções, percebe que Anny teve algumas dificuldades para escrevê-lo.
 - Então? O que achou? - Lian se vira, percebendo os olhos reprovadores de Anny. Sabe que ela não gosta que leiam seus trabalhos, antes de concluí-los e revisá-los umas duzentas vezes pelo menos.
 - Ah.....desculpe Anny - responde Lian, com um meio sorriso - Não pude resistir.
 - Tudo bem....e então...? - questiona Anny, ainda tentando acordar
 - Ah....está no começo ainda não é? Não dá para dizer?
 - Está horrível...já entendi.. - diz Anny sorrindo – Não consigo entender porquê Jonh quer um erredo estúpido desses.
 - Bom...e já deu um título para ele?
 - Sim.....pelo menos isso já consegui definir. Nem sei de onde, mas foi a primeira coisa que me veio a cabeça, antes mesmo de começá-lo.
 - E qual é? - questiona Lian
 - Porquê quer saber? Nem sei se irei terminá-lo... - Anny responde, levantando-se enrolada em seu lençol e já acendendo um cigarro.
 - Ah...fala...quero saber.
 - Ok...- diz Anny voltando para buscar a toalha e dando um beijo demorado em seu amado. - É “Dia ruim em Anland”.

Por Alyne Luz

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Esperança


Eu acredito em palhaço

Sorriso solto, medo escondido entre o nó da gravata de laço

Vira, pula, cai levanta, vibra, corre, chora, canta

Malabares, Cambalhotas, gargalhadas, giros no espaço


Eu acredito em palhaço

Pedaços soltos de lembranças pintados no sorriso aberto

Aquela risada gostosa, que se solta só na infância

Tem a estrada como casa, sem endereço, rumo incerto
 

Eu acredito em palhaço

Que mesmo de nariz falso, tem a verdade nos olhos

Vê do picadeiro a vida, espera o fim do espetáculo

Aguardando por sorrisos, ansiando por aplausos

 
Eu acredito em palhaço

Que ri dos seus próprios medos, escondendo seus segredos no buraco do chapéu

a imagem da esperança num sorriso de criança, salta, corre, cai, balança

se equilibra, chora, dança, pula alto e nem se cansa, tentando alcançar o céu
 

Eu acredito em palhaço

Porque ainda guardo aqui, bem fundo do meu peito, um pouquinho de criança

Se por um instante esqueço, dessa vida tão maluca, me lembro desse tesouro

Chaveado na gaveta,  embrulhado nos meus sonhos, na caixinha da esperança.

 

 

Rascunhos


1981, no rádio, se ouve Ivan Lins, uma música que fala de aprendizado, de vivência chamada “Daquilo que eu sei”, uma mulher espera na sala de emergência, que o Sr. Doutor se digne a aparecer. 

A enfermeira ao telefone, balança afirmativamente a cabeça e desliga, se dirigindo a maca, onde uma grávida se contorce  de dor, percebendo que por mais experiência que se tenha, ( já estava no terceiro rebento), nada nos prepara para esse momento. 

A enfermeira fala alguma coisa, que entre os espasmos de dor da mulher grávida, tornam-se inaudíveis, e só o que a pobre mulher consegue visualizar, é a agulha sendo preparada, que lhe entra pela veia, trazendo na dor da picada, um pouco de alívio afinal.

Mais algumas horas se passam, e nada do Sr. Doutor, as dores assaltam novamente seu corpo e lá vem a dona agulha de novo, trazer alívio imediato.

A enfermeira mostra-se nervosa, novamente pega o telefone, agora visivelmente perturbada, se volta para a gravida deitada na maca, que meio dopada, ouve – a fazer alguma afirmação e num gesto repentino, sair empurrando sua maca corredor à dentro.

Nasci uma linda menina, 4,60 gramas, 50 cm, um bebezão perfeito, exceto pela protuberância eminente no alto da cabeça, herança da demora do Sr. Doutor. 

Muitos anos se passaram, logo chegam os inta, os enta, e passo a me perguntar o realmente fiz de bom, chegando a conclusão que vivi, apenas lutei com as armas que foram a mim disponibilizadas.  Ataquei no momento do ataque e recuei no momento da dor, e olha que meu nível de dor é bem elevado.

Igualmente tive uma linda menina, com exatos 4,60 Kg, igualmente linda e mesmo num parto difícil, foram 18 horas de trabalho de parto induzido, ela nasceu perfeita, linda e cheia de fome.

Algumas coisas, realmente acredito que poderiam ter sido diferentes, mas tudo, como dizem os sábios, aconteceu como tinha que acontecer, no momento e no lugar certo. Posso considerar que tive uma boa vida, cheia de altos e baixos, mas fazer o quê, como boa sagitariana que sou, só fiz o meu papel. Quando amo, amo demais, me jogo de cabeça, e sem capacete. Paixão é a máxima do sagitariano, em tudo, absolutamente tudo que faz. E esse, talvez tenha sido meu principal defeito, paixão pela vida e necessidade de experimentar, de sentir, de me colocar forte e vulnerável, fortaleza e cristal, mas inteira, exposta, afinal nenhum Centáuro passa desapercebido, caçadora de mim mesma, essa sou eu.

Mas o caso é que com “toda” essa vivência, pude tirar algumas conclusões.

O ser humano é um ser no mínimo curioso. Adora gravar em seu corpo, tatuando figuras lendárias, amores, ou algum símbolo que faça parte ou represente sua vida, seus credos, seus amores e, no entanto, teima em apagar do rosto, com cremes milagrosos anti – rugas, anti –idade, os dias de sua existência.

Todo processo de transformação é doloroso, de uma forma ou de outra. Porque a transformação exige entrega, exige empenho, mesmo que apenas o esforço do processo de adaptação, de aceitação do novo. Normalmente, tudo que é novo, causa receio. Tememos o que desconhecemos, é inevitável, instintivo até. Mas esse processo inflamatório todo, institui-se depois de uma determinada fase da vida.

Quando somos crianças, aprendemos desde cedo por processos experienciais. Para andar aprendemos caindo, para falar, aprendemos balbuciando, pronunciando meias palavras.

No caso da alimentação, pior ainda, antes de aprendermos as regras de etiqueta à mesa, são milhares e milhares de pratinhos de papa no chão, e em nossos cabelos e roupas, enlouquecendo nossos, sempre pacientes progenitores.

É a lei da vida, o processo de evolução requer transformação, que requer aprendizagem, que requer experimentação, que requer um jogo eterno de erros e acertos, que requer tempo e assim sucessivamente.

Viver, é um eterno querer. A eterna busca do ser, do ter, do estar. Cada qual com seus parâmetros, o que te faz feliz, pode ser uma bobagem para o cara ali do lado e vice e versa.

Por exemplo, sabe o que me deixa feliz? Um pote de pipocas, um desenho da Cinderela ou da Pequena Sereia, para assistir do lado da minha pequena. Ou comprar aquele livro que eu tanto queria. Ou encontrar uma raridade da Bossa Nova na promoção de um sebo qualquer.

Cada um tem seu nível de felicidade, como naqueles brinquedos para medir a força nos parques de diversões. Só tomando o cuidado para que o brinquedo não esteja adulterado, e não tenha ninguém lá atrás, segurando ou liberando o haltere, em cada batida do martelo.

Não existe ninguém, meio feliz, assim como não existe meio triste, meio gelado ou meio grávida. São estados sólidos, concisos, que não têm margem de erro possível. Ou seja, ou se está ou não.

Renascer, renovar, refazer, reinventar. Rever conceitos, reverter estados, revisar valores, remendar buracos.

Relembrar não só das coisas boas, mas rever as ruins, tentando entendê-las e refazendo o final de cada história.

Essa é a nossa missão na terra, como autores da nossa vida, reescrever, muitas e muitas vezes, rascunhos e rascunhos de histórias, até que possamos finalmente e verdadeiramente reeditá-las, com uma capa mais elegante, e nas últimas páginas, aí sim, um final mais feliz.

 

 

Por Aliye Luz

Poeta?


Poeta? Melhor não sê-lo

Poetas só morrem de amor

E sangram sonetos

E sorvem torpor
 

Poetas não ganham milhões

Não dão audiência

E vivem nos guetos

Não pregam jargões


Poetas não sabem sorrir

Não buscam as metas

Não seguem as setas

Não podem mentir
 
 

Poetas são mais que vilões

São belos, galantes, bandidos

São Dantes, estranhos mutantes

Assaltam a alma,  roubam corações
 

Poetas não temem a morte

São puros, são grandes

Seguem a própria sorte

São muitos, são fortes
 

Poeta? Melhor não sê-lo

Poetas não sabem amar

São rimas que fogem, escorrem

E seguem, pois já não podem calar

Por Alyne Luz
 

Mais um novo Hit


“Para nossa alegria”, mais um hit é lançado, o mais velho sucesso do momento. A música, lançada em 1993 pela banda Gospel Catedral, derrepente explode em sucesso pelo país inteiro.

Mas todo esse sucesso não se deve a qualidade dos seus músicos e sonoridade autêntica. Poderia, mas não é.

Um grupo de três criaturas, absolutamente sem noção, resolvem numa tarde de “ócio criativo”, gravar o hit. Absurdamente desafinados, indo contra todos os princípios de musicalidade existentes, eles cumprem seu papel e a linda música da Catedral, finalmente cai na boca do povo.

Mas voltando alguns meses atrás, à célebre pergunta, que não podia calar: E a Luiza? Bem, foi descoberto, logo em seguida, que a Luiza estava realmente no Canadá e que seu pai, diante do sucesso estrondoso, mandou buscá-la.

As redes sociais realmente são a maravilha do novo século. Tudo pode, tudo é permitido. “É proibido proibir”, parece que a letra de Caetano, nunca esteve tão em voga.

Mas o que me chama à análise, realmente é a capacidade da raça humana em absorver esses “sucessos”. Como a chamada “cultura de massa” tem poder.

Já o twiter, tornou-se uma tribuna pública, muitos consumidores indignados lançam na rede comentários capazes de fazer multinacionais poderosas tremerem.

Nos Estados Unidos, um dos tidos como vilões da obesidade infantil, resolve agregar ao seu cardápio para redmir-se, uma porção de fruta, devidamente enlatada e plastificada. Claro, ótima jogada de marketing “Coma toda a gordura que puder, mas, coma também uma frutinha”.

Mensagens subliminares à serviço da propaganda datam dos primórdios da era televisiva. Talvez ultimamente um pouco menos agressivas, mas absolutamente eficazes.

A mídia diz: “coma”, “faça”, “use”, e nós, como bons soldadinhos, seguimos obedientes à nossa farra consumista.

Não sou dada as doutrinas socialistas, nem radicalistas, nem apocalípticas, mas acredito que o excesso, em qualquer forma de ser, não pode ser positivo.

Mas seguimos absorvendo. Faça um teste, eu o desafio! Chegue no trabalho, numa segunda – feira e pergunte a turma quem foi o ganhador daquele reality show que chegou ao fim.

Não surpreenda-se se noventa por cento dos seus colegas souber nome, sobrenome, número do sapato ( e alguns até da cueca) do vencedor.

Agora, mude o cenário: Pergunte aos seus queridos colegas, quem é hoje o chefe da Casa Civil Brasileira. Não se surpreenda se alguém levantar a cabeça e perguntar: Da casa de quem?

Acho que essa liberdade de expressão é absolutamente saudável e que o “ócio criativo” realmente permite a descoberta de muitas “pérolas”.

Mas há que se ter critério, alguns limites são necessários. Assim como o medo, que em certa dose é positivo para que nos mantenhamos inteiros, assim deve ser o critério para avaliação do que realmente nos interessa nesse bombardeio de informações que recebemos diáriamente.

As ofertas são muitas, as tentações são muitas, mas não fomos classificados como espécie “Homo Sapiens” à toa.

Então, solta uma mídia expressa consciente, no capricho e com bastante molho!
 
 
 
Por Alyne Luz

Confissões de “quase trinta”


 
Quando o cromossomo “XY” de papai resolveu se unir ao cromossomo “XX” de mamãe, pronto, estava feita mais uma história de “quases”. 

Por um “quase” eu nasci menina, por um “quase” pesando 5Kg, na verdade 4,60 Kg, menina gordinha, nada de “quase”, gordinha mesmo, gostosa de morder e difícil de carregar, que o diga minha mãezinha...

Existem certas fases na vida em que nos colocamos entre uma situação e outra, sem conseguir definir exatamente em que “ponto” nos encontramos. Como no caso da noiva na véspera do seu casamento, será ela “quase” casada? E a menina que vê precocemente seu corpo florescer em volumes incômodos e indefinidos, nem bem voluptuosos, nem bem inocentes, menina ou uma “quase” mulher? E os “quase” vegetarianos? Carne? Somente socialmente. Por outro lado uma mulher “quase” grávida, por exemplo, seria um desafio a ciência moderna.

A fase do “quase” na verdade acredito que nos acompanhe durante toda vida. Vivemos constantemente em cima do muro, posição mais simpática, mais política e confortável.

Quando somos pequenos, para algumas coisas nossos pais alegam que “ainda não somos grandes”, enquanto que para outras ouvimos estáticos “você não acha que já está meio “grandinho” para isso?” Ficamos nesse limbo, em meio a duas realidades. Na adolescência, essa é a pior fase do quase, para ambos os gêneros, os meninos têm a voz “quase” grossa, alguns fiozinhos de barba resolvem aparecer aqui e acolá, praticamente “quase” homens. E para elas? corpos indefinidos, criando volumes, embora disformes ainda. Aliás, nesse período poderia ser permitido ao ser humano “hibernar”, como os ursos, só retornando à vida depois de passada essa fase, os pais com certeza iriam adorar mais ainda. 

Mas passada essa fase, conquistamos nossa tão sonhada liberdade. Entre os dezessete, dezoito anos nos consideramos “quase” adultos, nos faltando apenas o mísero detalhe financeiro para que possamos alcançar nossa “redenção”.  Estudamos, e lá se foram “quase” vinte e um, nos formamos, “quase” vinte e cinco e quando nos damos conta, estamos chegando aos temidos “quase” trinta.

Se nesse momento lhe bater o sinal vermelho e os comentários daquela tia chata, que em todos os encontros de família insiste em indicar que é “hora de ser mamãe”, “hora de casar”, passarem a fazer algum sentido; bem vinda ao grupo dos “quase” trinta.

Não que os “quase” quarenta e “quase” cinqüenta não tenham tanta importância quanto, porém depois dos “quase” trinta, acabamos por abandonar essa história de “quase” e passamos a “já passei dos trinta”, por isso, essa fase torna-se tão importante, percebe?

Pois bem, se este é o seu caso, não se aflija, ainda há esperança! Assuma seu lugar no mundo de adulto bem sucedido, que sempre colocou sua carreira e estabilidade acima de tudo e vá a luta.

Se a questão é a sua “metade da laranja”, existem lugares ótimos para se conhecer um parceiro ou parceira. Se você é do tipo intelectual - prático, que tal uma pós? Universidades são ótimos locais de se conhecer outros solteiros igualmente desesperados - digo, esperançosos, unindo o útil ao agradável.

Porém, se você é do tipo romântica à moda antiga, como diria o rei, cuidado, talvez o príncipe encantado necessite de algumas modificações. Se o sapinho for legal, nada de que um “banho de loja” e um “intensivo de academia” não resolvam.

Mas se você é do tipo que convive muito bem consigo mesma, assuma a sua condição, como o brado da voz do destino, que Beethoven incutiu em seu último quarteto de cordas “Es muss sein”, tem que ser. Mas cada um na sua, nem todos nasceram para propaganda de margarina, e ninguém tem nada com isso.

Independentemente da condição do ser humano em questão, casado, solteiro, bem ou mal sucedido, esse é um momento de passagem, para pontos negativos como quilinhos e “ruguinhas” a mais, porém também pontos positivos, momento de auto - afirmação, de conquista real do seu lugar no mundo. De consciência do seu “eu” para os mais espiritualizados; para os mais vaidosos, momento de aumentar o poder do creme anti – rugas, mas para todos, um momento de celebrar a maravilhosa condição humana, de se re-inventar a cada nova fase da vida, de sermos eternamente seres “quase” perfeitos.

 

 Por Alyne Luz

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Definições


Amor maduro, amor passivo

Amor mais puro, amor lascivo

Amor de novo, amor reinventado

Amor quietinho ou descarado

Amor que une, amor que mata

Amor em tiras, amor em lata

Amor que queima ou que devora

Amor que te teima ou pula fora

Amor que geme, amor que grita

Amor que treme, que regurgita

Amor infinito, amor que dure

Amor que embriaga, amor que nutre

Amor que sonha, amor que acalma

Amor de carne, amor de alma

Amor qualquer, a qualquer preço

Amor que quer, que tem apreço

Amor vadio, amor distinto

Amor crescente, amor instinto

Amor que morre, amor que salva

Amor que escorre, amor na palma

Amor perdido, amor roubado

Amor esquivo, escancarado

Amor que eu quero e que me queira

Amor que eu velo, pra vida inteira.

 

 

Conjecturas


Se o mundo inspira falta de utopias

E o tempo escreve

Falsas biografias

Histórias curtas de ninguém

 

Se a vida é agora

Se espera um tempo

E o que já foi-se embora

Na curva, turva de quem vem

 

Filho de Doras e neto de Marias

Das agonias de Salém

E escarrado, escrito em duas vias

Na tatuagem de outrem

 

Pílulas frias e mentes tão vazias

Da histeria de alguém

Ouve de longe, a mesma sinfonia

São distonias, mas de quem?

Somos todas nós


 

Aquela que está sempre disposta

Pra mesa bem posta ou pro salto quinze

Ao trabalho dá tudo que pode

Aos seus o melhor e mais, se preciso for

 

Aquela a quem chamam de frágil

Tão simples e ágil, sempre arruma tempo pra se perfumar

Às vezes se põe de armadura, coragem e cura

De alma mais pura, se entrega a lutar

 

Aquela que estampa um sorriso

Segura no “osso”, seu pranto sofrido

Sem nem um gemido, levanta a poeira

Se põe mais inteira, pros seus levantar

 

Aquela que cuida da casa da empresa

dos filhos, dos pais ou do cachorrinho,

amores demais, com o mesmo carinho

Guardando um pouquinho, pra si, pra se amar.

 

Aquela que sonha e que quer

Sempre ao mesmo tempo


ser forte e menina, ser mais feminina

Ser frágil? Imagina......ser uma MULHER

 

Por: Aline Luz

Com a palavra, o povo brasileiro


Há que se criar uma nova era

Sem H, era de glória, não de erva - daninha.

Há que se pender uma nova esperança,

Olhar de criança, visando o futuro.

 

Há que se escrever um novo capítulo,

Sem tantos títulos, escalpos, melindres.

Há que varrer por debaixo dos planos,

Jogando para fora do tapete, toda a sujeira dos panos.

 

Há que se prover uma nova medida

Expedida, escarrada, expelida pela revolta.

Há que se criar uma nova verdade

Libertada da vaidade, livre e plena, sem escolta.

 

Há que se manter as cabeças erguidas

Sem promessas não cumpridas, sem “jeitinho brasileiro”

Há que se buscar um “momento” novo

Mais do povo, rosto exposto, de um país mais inteiro.

 

por Aline Luz

 

Meus bons passos


 
 

A cada passo me sinto incerto


Já não me traço como antes

O que faço me desperta,

no meu peito crava a foice

 

A cada passo me vejo livre

Solto, fingindo que vivo

Sorvo a vida numa taça

Como a traça num bom livro

 

A cada passo, descompassado sigo

Recebo meu passe frívolo

Cego ao passo que me sinta

do espaço em que me sirvo

 

A cada passo, um nó, um laço

Nó de pinha, nó de umbigo

Num abraço de aconchego

No compasso de estar vivo
 
 
 
Por Aline Luz