Lia desperta.
Ainda meio zonza tenta localizar-se. Lembra-se de onde está, porém o sonho ainda
lhe parece tão vívido, quase pode sentir o cheiro do cafezinho, emanando do
bule que fervia na cozinha da casa de sua Avó. Por um breve momento, chegou a
confundir-se.
- Lia Anderson, você tem vinte minutos para
aprontar-se. Seu banho já está preparado – diz uma voz feminina e familiar.
Lia resolve
então levantar-se. Aciona o botão do controle de sono, lateral a cama. O
capacete virtual que envolvia sua cabeça dissípa - se no ar. Lembra-se que o
havia programado para sonhar com a antiga casa de sua Avó, da qual tinha muitas
lembranças boas.
Põe-se
sentada à beira da cama, ouvindo o aviso de sua secretária virtual, a qual Lia
batizou singelamente de “Beth”, pois, mesmo que apenas uma projeção
computadorizada, gostava de imaginá-la como uma pessoa pela qual teria apreço.
- Beth querida, bom dia para você também. Sol,
por favor - Diz espreguiçando-se - Hoje gostaria de um belo dia ensolarado.
Beth programa
o controle de “Dia personalizado”, e um belo céu azul, limpo e claro surge na
parede branca e fria.
Lia
encaminha-se para o seu banho matinal. Posiciona-se centralizadamente no
interior do Box de vidro azul escuro, levanta o rosto e a um comando de sua
voz, um jato de vapor, numa temperatura bem agradável, surge da canalização da
parede, umedecendo seu corpo. A um segundo comando, um novo jato de vapor, agora
providencia a secagem.
Lembra-se do
sonho, das toalhas macias de sua Avó com flores bordadas, roçando em sua face. Lia lembra-se, que ainda na época de sua mãe, baniram-se
as toalhas, ao mesmo tempo quase, que o uso da água nos banhos.
Aliás, quase
tudo que envolvia o uso da água para algum uso, que não o de exclusiva
sobrevivência, foi banido ainda em 2036, tinha na época cinco anos, mas
lembra-se bem.
Sai nua do
chuveiro, encaminha-se ao seu quarto para vestir-se, mais um dia de trabalho.
Todas as roupas, embora muito funcionais, tem prazo de validade bem curto, 24
horas. Ao final de cada dia, são descartadas.
Lia opta por
um modelo simples, com corte reto e confortável, perfeita para um dia inteiro
de trabalho.
Levanta os
braços e ao seu comando, um laser de cor azulada corre por seu corpo nu,
construindo, numa fração de segundos, o modelo escolhido, bem como a maquiagem
suave.
Lia dá uma
última olhadela no visual, e encaminha-se ao transportador.
Em sua época,
quase não existem mais veículos, e os poucos que existem são de pessoas que
podem dar-se a esse luxo, e esse, definitivamente não era o seu caso. As
pessoas comuns utilizam os Transmol’s, Transportadores Intermoleculares de
curto Espaço.
Sua Avó com
certeza faria graça desse nome. Mas são equipamentos muito úteis, que poupam
tempo e dinheiro de quem os utiliza.
O que ocorre
é o transporte, molécula por molécula de um lugar a outro em nano segundos. Pode-se ir a qualquer lugar dentro do
perímetro estadual. Para viagens mais longas, é necessário ir até a CETTI, Central
de transbordo para Transporte Intermolecular. Não existem passaportes, todos os
seres vivos (ou até virtuais) portam chips de identificação, os quais são
inseridos na córnea logo após o nascimento.
Mas somente
para àqueles classificados como classe média, média alta, alta, e os chamados
RASD (Raça super desenvolvida), estes últimos herdeiros dos Campos do Centro da
Terra.
As pessoas de
condições pobres a miseráveis, quando ainda não castradas, são escaneadas e
cuidadosamente examinadas. Se constatado qualquer indício de pré – disposição a
algum tipo de doença, física ou psíquica, são encaminhados ao chamado “Campo da
Misericórdia”, alguns mais graves para extermínio e outros, com alguma
possibilidade de futuro, para tratamento prévio. Estes Campos são sustentados por Grupos
religiosos específicos, com apoio do governo.
Na verdade,
Lia sabe que a maioria nem passa por essa classificação, pois os meios de
extermínio custam muito menos à sociedade, do que os meios de recuperação.
Aliás, Lia
acredita que essa é uma premissa histórica, que vem bem antes dos novos tempos,
só que antigamente era feito de forma mais velada: Os mais pobres acabavam
exterminados naturalmente, pelas doenças, pela inanição, enfim por condições
realmente miseráveis.
Em meio aos
seus devaneios, Lia chega ao seu local de trabalho. Lia trabalha numa indústria
farmacêutica. Um dos ramos de maior crescimento nas últimas décadas.
Com o passar
dos anos e o processo de deterioração do meio – ambiente, da escassez de água
no planeta, seguindo – se das guerras pela posse das poucas nascentes de água
ainda existentes e das epidemias que se seguiram, a indústria farmacêutica
mundial teve um “bum” semelhante ao da indústria automobilística no passado.
Com o
processo constante de desidratação e as tentativas frustradas da produção de
uma água artificial e industrialmente criada, surgiram várias novas doenças.
Além disso,
as constantes mudanças climáticas, o declínio da proteção atmosférica contra os
raios solares, causaram a proliferação da procura por cosméticos
antienvelhecimento, agora renomeados para CRUHP’s, Cremes de ultra - hidratação
progressiva.
Lia também os
usa, claro que por questões estéticas, mas principalmente por questões de
sobrevivência, pois a desidratação é uma das principais causas de morte no
mundo, duas horas de exposição direta ao sol, pode acarretar sérias
conseqüências no ano de 2062.
Por isso,
talvez também o Transmól’s, tenham se disseminado tanto. As pessoas
dificilmente vão às ruas, pois além dos perigos atmosféricos, existem os
ataques, a exposição às doenças etc...
Todo
estabelecimento comercial, público e mesmo a maioria das residências existentes,
possui um Transmól’s.
Na verdade, o
que acaba gerando algum congestionamento, muitas vezes são necessários vários
minutos para conseguir-se uma conexão. O
que para os habitantes destes novos tempos, é muito, pois a expectativa de vida
foi reduzida para os cinqüenta anos, então, tudo deve ser muito acelerado.
Carreiras iniciam aos dez anos de idade, quando as crianças passam à puberdade.
Lia tenta
concentrar-se em seu trabalho, que na verdade nada mais é que um cargo
administrativo qualquer. Estudou apenas
até a segunda pós - graduação, o que na atual conjectura, não significa quase
absolutamente nada. Já passou dos trinta, então, em cinco ou seis anos, poderá
aposentar-se.
No momento, Lia
conta os dias para suas férias de verão. Vem guardando dinheiro há meses, para
a tão sonhada viagem a um Resort, no Centro da Terra.
Aliás,
destino esse de quase todas as pessoas com alguma condição financeira (ou como
no caso de Lia, com algumas economias guardadas ao longo do ano).
Lia leu muito
sobre o lugar, pesquisou inclusive na literatura clássica. Desde os devaneios
de Júlio Werner, a descoberta da possibilidade de exploração, até a disputa
territorial sangrenta, ocorrida entre a França e os Estados Unidos, pelos
direitos de exploração do território descoberto.
A França
alegava que Werner havia sido o descobridor original e os Estados Unidos
alegava que a sua equipe de cientistas é que havia feito a descoberta.
Lia não
entendia muito de política, mas no seu entendimento, a verdade é que os
cientistas americanos, baseados nos contos fantásticos de Werner, (agora
considerado não apenas um autor fantástico, mas um visionário, alguns o
denominaram até profeta), acabaram por decidir investir na possibilidade de que
suas fábulas, fossem verdadeiras e como “Colombo”, descobriram um continente
inteiro, com fauna, flora e diversos recursos naturais, que muito embora tão
limitados quanto seu exterior, poderiam sim ser explorados.
E é óbvio que
alguém teria que explorá-lo e não seria nenhum “Dalai Lama”, pronto a dividir
honestamente com o restante da humanidade. O mundo é dos vivos, já dizia a avó
de Lia, e ela considerava esse, um dos seus ditados favoritos.
Passam-se as
horas, Lia percebe que já está faminta, aproxima-se da hora do almoço. Encaminha-se
então ao refeitório, para receber sua dose diária de alimento.
No processo
de bloquear qualquer tipo de uso da água que não para consumo, a prática do ato
de alimentação foi se modificando. Hoje, os “operários” como Lia, acomodam-se
em cadeiras confortáveis e geladas de um couro absolutamente sintético. A um
comando seu, o capacete virtual materializa-se em suas cabeças. Em segundos,
percebem-se ao redor de uma grande mesa farta e cuidadosamente decorada, em
meio a um jardim de Begônias. Na sala
fria, uma agulha posicionada lateralmente à poltrona, é inserida em seus
pescoços, ao mesmo tempo, que o capacete é materializado. Em seguida, um
líquido verde escuro, é bombeado para dentro de seus corpos por alguns minutos.
Satisfeita, Lia retorna ao seu posto, para mais algumas horas de trabalho.
Hora de ir
para casa, Lia está exausta, louca para um banho e uma cama quentinha.
Encaminha-se
ao Transmól, enfrentando a fila de operários que se segue. Em menos de meia
hora, o que na sua época é tempo demais, Lia está em casa. Após um banho, Lia
aciona o sistema de vestimenta a laser, trocando seu alinhado look, pelo velho
pijama.
As
necessidades fisiológicas também foram suprimidas, posto que a alimentação é
completamente absorvida pelo organismo, simplesmente não há o que excretar. Com
isso, alguns órgãos também acabaram
praticamente inutilizados, o que também acarretou o surgimento de várias
novas doenças. A inoperância do organismo, também mostrou - se prejudicial.
Por isso,
algumas vezes por semana, Lia se submete a um tratamento específico, para
manter todos os seus órgão ativos, ou pelo menos, espera que isso os mantenha.
Lia conclui
que talvez esse seja o maior dos males do novo século: a inoperância.
Inoperância
física, emocional, intelectual. Tudo está pronto, vem enlatado, virtual e sem
nenhum esforço. Suas relações de amizades são restritas e talvez, possua maior
intimidade com sua secretária virtual do que com seus amigos reais.
Lia lembra-se
das histórias contadas por sua avó, sobre sua época de infância. Um tempo em
que se “ficava”, em que as redes de relacionamento virtual estavam ainda engatinhando
e o contato humano era necessário. Em que a música era produzida por pessoas de
verdade, com instrumentos de verdade, imperfeita, dissonante, mas com
sentimento.
Lembra-se de
um comentário da avó certa vez, de que na sua época, as pessoas comuns, de
poucas posses, andavam de “ônibus”, um veículo motor, que comportava um número
x de passageiros e transitava em qualquer via. Lembra que a avó dizia, com um
certo ar de nostalgia, que não entendia o porquê, mas nos ônibus as pessoas sentavam-se
umas ao lado das outras, tomando um cuidado máximo de não cruzar olhares, e que
isso era constrangedor. Quando Lia
questionava o porquê desse comportamento humano, sua avó lhe respondia com um
sorriso:
- Medo, minha querida. As pessoas têm medo de
se manifestar, de se envolver, de se mostrarem fracos e vulneráveis com um
simples sorriso. Não apaixonam - se por medo de sofrer, não têm filhos, por
medo de não serem pais perfeitos, não se casam por medo de uma separação, não
mudam de emprego por medo do fracasso, não comem o que gostam por medo de
engordar, não mudam de cabelo por medo de não se gostarem. Medo minha querida,
é a engrenagem que move a humanidade.
Lia ainda
hoje, concordava com sua Avó, só que hoje, o medo evoluiu, cresceu e com o passar
do tempo, foi engessando os seres humanos.
Hoje, é esse mesmo sentimento, fortificado e
evoluído, ao qual Lia chama de “inoperância”.
Pronta para
dormir, já aninhada na cama, Lia aciona o capacete virtual, programado para
sonhar com sua Avó, um pouco de alívio para seus dias de desespero e
incoerência.
- Olá querida
– diz a voz encorpada e conhecida - O que vamos fazer hoje?
Lia pára por
um instante e pensativa responde:
- Podemos
andar de ônibus Vovó?
Num instante,
percebe-se sentada, ao lado de sua Avó, mirando a paisagem passando rapidamente
pela janela. Do outro lado do corredor, um senhor de olhos muito azuis sorri.
Lia vê sua avó retribuir o sorriso e iniciar um papo sobre as condições do
Clima e sobre bolos de chocolate.
- Ativa e
operante, sem medo de ser feliz. – Pensa alto Lia - Pelo menos em meus sonhos.
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