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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

2062


Lia desperta. Ainda meio zonza tenta localizar-se. Lembra-se de onde está, porém o sonho ainda lhe parece tão vívido, quase pode sentir o cheiro do cafezinho, emanando do bule que fervia na cozinha da casa de sua Avó. Por um breve momento, chegou a confundir-se.

 - Lia Anderson, você tem vinte minutos para aprontar-se. Seu banho já está preparado – diz uma voz feminina e familiar.

Lia resolve então levantar-se. Aciona o botão do controle de sono, lateral a cama. O capacete virtual que envolvia sua cabeça dissípa - se no ar. Lembra-se que o havia programado para sonhar com a antiga casa de sua Avó, da qual tinha muitas lembranças boas.

Põe-se sentada à beira da cama, ouvindo o aviso de sua secretária virtual, a qual Lia batizou singelamente de “Beth”, pois, mesmo que apenas uma projeção computadorizada, gostava de imaginá-la como uma pessoa pela qual teria apreço.

 - Beth querida, bom dia para você também. Sol, por favor - Diz espreguiçando-se - Hoje gostaria de um belo dia ensolarado.

Beth programa o controle de “Dia personalizado”, e um belo céu azul, limpo e claro surge na parede branca e fria.

Lia encaminha-se para o seu banho matinal. Posiciona-se centralizadamente no interior do Box de vidro azul escuro, levanta o rosto e a um comando de sua voz, um jato de vapor, numa temperatura bem agradável, surge da canalização da parede, umedecendo seu corpo. A um segundo comando, um novo jato de vapor, agora providencia a secagem. 

Lembra-se do sonho, das toalhas macias de sua Avó com flores bordadas, roçando em sua face.  Lia lembra-se, que ainda na época de sua mãe, baniram-se as toalhas, ao mesmo tempo quase, que o uso da água nos banhos.

Aliás, quase tudo que envolvia o uso da água para algum uso, que não o de exclusiva sobrevivência, foi banido ainda em 2036, tinha na época cinco anos, mas lembra-se bem.

Sai nua do chuveiro, encaminha-se ao seu quarto para vestir-se, mais um dia de trabalho. Todas as roupas, embora muito funcionais, tem prazo de validade bem curto, 24 horas. Ao final de cada dia, são descartadas.

Lia opta por um modelo simples, com corte reto e confortável, perfeita para um dia inteiro de trabalho.

Levanta os braços e ao seu comando, um laser de cor azulada corre por seu corpo nu, construindo, numa fração de segundos, o modelo escolhido, bem como a maquiagem suave.

Lia dá uma última olhadela no visual, e encaminha-se ao transportador.

Em sua época, quase não existem mais veículos, e os poucos que existem são de pessoas que podem dar-se a esse luxo, e esse, definitivamente não era o seu caso. As pessoas comuns utilizam os Transmol’s, Transportadores Intermoleculares de curto Espaço.

Sua Avó com certeza faria graça desse nome. Mas são equipamentos muito úteis, que poupam tempo e dinheiro de quem os utiliza.

O que ocorre é o transporte, molécula por molécula de um lugar a outro em nano segundos.  Pode-se ir a qualquer lugar dentro do perímetro estadual. Para viagens mais longas, é necessário ir até a CETTI, Central de transbordo para Transporte Intermolecular. Não existem passaportes, todos os seres vivos (ou até virtuais) portam chips de identificação, os quais são inseridos na córnea logo após o nascimento.

Mas somente para àqueles classificados como classe média, média alta, alta, e os chamados RASD (Raça super desenvolvida), estes últimos herdeiros dos Campos do Centro da Terra. 

As pessoas de condições pobres a miseráveis, quando ainda não castradas, são escaneadas e cuidadosamente examinadas. Se constatado qualquer indício de pré – disposição a algum tipo de doença, física ou psíquica, são encaminhados ao chamado “Campo da Misericórdia”, alguns mais graves para extermínio e outros, com alguma possibilidade de futuro, para tratamento prévio.  Estes Campos são sustentados por Grupos religiosos específicos, com apoio do governo.

Na verdade, Lia sabe que a maioria nem passa por essa classificação, pois os meios de extermínio custam muito menos à sociedade, do que os meios de recuperação.

Aliás, Lia acredita que essa é uma premissa histórica, que vem bem antes dos novos tempos, só que antigamente era feito de forma mais velada: Os mais pobres acabavam exterminados naturalmente, pelas doenças, pela inanição, enfim por condições realmente miseráveis.

Em meio aos seus devaneios, Lia chega ao seu local de trabalho. Lia trabalha numa indústria farmacêutica. Um dos ramos de maior crescimento nas últimas décadas.

Com o passar dos anos e o processo de deterioração do meio – ambiente, da escassez de água no planeta, seguindo – se das guerras pela posse das poucas nascentes de água ainda existentes e das epidemias que se seguiram, a indústria farmacêutica mundial teve um “bum” semelhante ao da indústria automobilística no passado.

Com o processo constante de desidratação e as tentativas frustradas da produção de uma água artificial e industrialmente criada, surgiram várias novas doenças.

Além disso, as constantes mudanças climáticas, o declínio da proteção atmosférica contra os raios solares, causaram a proliferação da procura por cosméticos antienvelhecimento, agora renomeados para CRUHP’s, Cremes de ultra - hidratação progressiva.

Lia também os usa, claro que por questões estéticas, mas principalmente por questões de sobrevivência, pois a desidratação é uma das principais causas de morte no mundo, duas horas de exposição direta ao sol, pode acarretar sérias conseqüências no ano de 2062.

Por isso, talvez também o Transmól’s, tenham se disseminado tanto. As pessoas dificilmente vão às ruas, pois além dos perigos atmosféricos, existem os ataques, a exposição às doenças etc...

Todo estabelecimento comercial, público e mesmo a maioria das residências existentes, possui um Transmól’s.

Na verdade, o que acaba gerando algum congestionamento, muitas vezes são necessários vários minutos para conseguir-se uma conexão.  O que para os habitantes destes novos tempos, é muito, pois a expectativa de vida foi reduzida para os cinqüenta anos, então, tudo deve ser muito acelerado. Carreiras iniciam aos dez anos de idade, quando as crianças passam à puberdade.

Lia tenta concentrar-se em seu trabalho, que na verdade nada mais é que um cargo administrativo qualquer.  Estudou apenas até a segunda pós - graduação, o que na atual conjectura, não significa quase absolutamente nada. Já passou dos trinta, então, em cinco ou seis anos, poderá aposentar-se.

No momento, Lia conta os dias para suas férias de verão. Vem guardando dinheiro há meses, para a tão sonhada viagem a um Resort, no Centro da Terra.

Aliás, destino esse de quase todas as pessoas com alguma condição financeira (ou como no caso de Lia, com algumas economias guardadas ao longo do ano).

Lia leu muito sobre o lugar, pesquisou inclusive na literatura clássica. Desde os devaneios de Júlio Werner, a descoberta da possibilidade de exploração, até a disputa territorial sangrenta, ocorrida entre a França e os Estados Unidos, pelos direitos de exploração do território descoberto.

A França alegava que Werner havia sido o descobridor original e os Estados Unidos alegava que a sua equipe de cientistas é que havia feito a descoberta.

Lia não entendia muito de política, mas no seu entendimento, a verdade é que os cientistas americanos, baseados nos contos fantásticos de Werner, (agora considerado não apenas um autor fantástico, mas um visionário, alguns o denominaram até profeta), acabaram por decidir investir na possibilidade de que suas fábulas, fossem verdadeiras e como “Colombo”, descobriram um continente inteiro, com fauna, flora e diversos recursos naturais, que muito embora tão limitados quanto seu exterior, poderiam sim ser explorados.

E é óbvio que alguém teria que explorá-lo e não seria nenhum “Dalai Lama”, pronto a dividir honestamente com o restante da humanidade. O mundo é dos vivos, já dizia a avó de Lia, e ela considerava esse, um dos seus ditados favoritos.

Passam-se as horas, Lia percebe que já está faminta, aproxima-se da hora do almoço. Encaminha-se então ao refeitório, para receber sua dose diária de alimento.

No processo de bloquear qualquer tipo de uso da água que não para consumo, a prática do ato de alimentação foi se modificando. Hoje, os “operários” como Lia, acomodam-se em cadeiras confortáveis e geladas de um couro absolutamente sintético. A um comando seu, o capacete virtual materializa-se em suas cabeças. Em segundos, percebem-se ao redor de uma grande mesa farta e cuidadosamente decorada, em meio a um jardim de Begônias.  Na sala fria, uma agulha posicionada lateralmente à poltrona, é inserida em seus pescoços, ao mesmo tempo, que o capacete é materializado. Em seguida, um líquido verde escuro, é bombeado para dentro de seus corpos por alguns minutos. Satisfeita, Lia retorna ao seu posto, para mais algumas horas de trabalho.

Hora de ir para casa, Lia está exausta, louca para um banho e uma cama quentinha. 

Encaminha-se ao Transmól, enfrentando a fila de operários que se segue. Em menos de meia hora, o que na sua época é tempo demais, Lia está em casa. Após um banho, Lia aciona o sistema de vestimenta a laser, trocando seu alinhado look, pelo velho pijama.

As necessidades fisiológicas também foram suprimidas, posto que a alimentação é completamente absorvida pelo organismo, simplesmente não há o que excretar. Com isso, alguns órgãos também acabaram  praticamente inutilizados, o que também acarretou o surgimento de várias novas doenças. A inoperância do organismo, também mostrou - se prejudicial.

Por isso, algumas vezes por semana, Lia se submete a um tratamento específico, para manter todos os seus órgão ativos, ou pelo menos, espera que isso os mantenha.

Lia conclui que talvez esse seja o maior dos males do novo século: a inoperância.

Inoperância física, emocional, intelectual. Tudo está pronto, vem enlatado, virtual e sem nenhum esforço. Suas relações de amizades são restritas e talvez, possua maior intimidade com sua secretária virtual do que com seus amigos reais.

Lia lembra-se das histórias contadas por sua avó, sobre sua época de infância. Um tempo em que se “ficava”, em que as redes de relacionamento virtual estavam ainda engatinhando e o contato humano era necessário. Em que a música era produzida por pessoas de verdade, com instrumentos de verdade, imperfeita, dissonante, mas com sentimento.

Lembra-se de um comentário da avó certa vez, de que na sua época, as pessoas comuns, de poucas posses, andavam de “ônibus”, um veículo motor, que comportava um número x de passageiros e transitava em qualquer via. Lembra que a avó dizia, com um certo ar de nostalgia, que não entendia o porquê, mas nos ônibus as pessoas sentavam-se umas ao lado das outras, tomando um cuidado máximo de não cruzar olhares, e que isso era constrangedor.  Quando Lia questionava o porquê desse comportamento humano, sua avó lhe respondia com um sorriso:

 - Medo, minha querida. As pessoas têm medo de se manifestar, de se envolver, de se mostrarem fracos e vulneráveis com um simples sorriso. Não apaixonam - se por medo de sofrer, não têm filhos, por medo de não serem pais perfeitos, não se casam por medo de uma separação, não mudam de emprego por medo do fracasso, não comem o que gostam por medo de engordar, não mudam de cabelo por medo de não se gostarem. Medo minha querida, é a engrenagem que move a humanidade.

Lia ainda hoje, concordava com sua Avó, só que hoje, o medo evoluiu, cresceu e com o passar do tempo, foi engessando os seres humanos.

 Hoje, é esse mesmo sentimento, fortificado e evoluído, ao qual Lia chama de “inoperância”.

Pronta para dormir, já aninhada na cama, Lia aciona o capacete virtual, programado para sonhar com sua Avó, um pouco de alívio para seus dias de desespero e incoerência.

- Olá querida – diz a voz encorpada e conhecida - O que vamos fazer hoje?

Lia pára por um instante e pensativa responde:

- Podemos andar de ônibus Vovó?

Num instante, percebe-se sentada, ao lado de sua Avó, mirando a paisagem passando rapidamente pela janela. Do outro lado do corredor, um senhor de olhos muito azuis sorri. Lia vê sua avó retribuir o sorriso e iniciar um papo sobre as condições do Clima e sobre bolos de chocolate.  
 - Ativa e operante, sem medo de ser feliz. – Pensa alto Lia -  Pelo menos em meus sonhos.

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