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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Dia Ruim em Anland


Anny tenta ajeitar-se no diminuto espaço do porta – malas. Não é pequena, 1,70 de altura, então de nenhuma forma conseguiria não sentir dor naquele aperto. Além disso, a mordaça em sua boca a sufoca, tenta buscar o ar e vê tudo a sua volta girar. O ronco do motor de seu carro, sonoro e familiar, lembra-se de que devia tê-lo mandado regular. Tenta concentrar-se, pensa que se desmaiar, pode não acordar. Tenta repassar esse dia em sua mente, buscando compreender o que acontece e se manter raciocinando.

Lembra-se que acordou por volta das 7h30 da manhã de hoje, foi até o portão com seu pijama rosa quadriculado de flanela, recolheu o jornal e as correspondências, nada de muita importância. Porém, ao passar o olhos por contas e infinitas propagandas, chama-lhe a atenção um envelope pardo, sem identificação alguma.

Anny exita por um segundo. Sabe que não pode ter sido entregue pelos correios, posto que não possui identificação alguma. Algum admirador secreto? Anny sorri, por um instânte, pensando na possibilidade. Não podia deixar de sentir-se lisonjeada se o fosse. Não era hipócrita e sentiria-se satisfeita, como qualquer mulher sentiría-se, se algum vizinho estivesse interessado na sua pessoa, mesmo que fosse comprometida.

Abre o envelope bem lacrado, com um certo cuidado e bem devagar puxa uma folha branca, com letras coladas. Um arrepio gelado corre por seu corpo e sente no mesmo instânte, o suor brotando do meio de suas costas, enquanto conclui a leitura: “Cara Anny, não pense que eu não irei atrás de você....sei tudo sobre você, assim como sabe sobre mim. Em breve nos encontraremos”.

Anny percebe sua respiração suspensa.

  • Como assim? O que isso quer dizer? Eu sei....sei o quê? Eu não sei de nada que....- Anny respira fundo, tentando acalmar-se
    – Ok, Anny Louise Anderson, sem pânico. Deve ser algum maluco sem nada para fazer, só isso, um maluco idiota, fazendo uma brincadeira idiota. - Anny deposita a carta sob a mesa e encaminha-se para o seu banho matinal.

  • Algumas horinhas na banheira me farão bem....- diz alto Anny, como tentando convercer a sí mesma.

Anny entra na banheira repleta de espuma. Coloca uma toalha branca para proteger a cabeça da superfície gelada da banheira. Tenta concentrar-se no que lhe parece o mais importante no momento: seu novo livro.

Começou a tecer a teia da trama há algumas semanas, mas de uma hora para outra, parece-lhe que uma cortina negra desceu sob seu cérebro. Simplesmente não consegue escrever. Tentou Yoga, Taichi, chocolate, anti – depressivos, mas nada, absolutamente nada tirou-lhe esse bloqueio. Anny sabe, ou pelo menos quer acreditar, que isso é momentâneo e que logo, logo estará vertendo ideias pelos poros, como sempre.

Já enrolada na toalha, pôe-se a frente do espelho com uma pinça.
Malditos pelos.... - Anny esbraveja, arrancando algumas penugens do buço - Qual o sentido da sua existência?A vibração do seu telefone, em cima do balcão do banheiro, a obriga a largar sua pequena sessão de tortura mamtinal.
 - Alô..... - Anny pára, tentando ouvir o silêncio que se segue no outro lado da linha.
 - Alô...Alguém aí... Olha eu tenho um identificador de chamadas, se isso for um trote é melhor se preparar, porque eu vou enfiar esse telefone pela sua.....
 - Olá querida Anny. Recebeu minha cartinha? - diz uma voz masculina do outro lado da linha.

Anny tenta controlar sua aflição. Na verdade no instânte em que atendeu o telefone, soube do que se tratava. O silêncio, a respiração compassada do outro lado, sabia que não poderia ser um simples engano.
- Te deixei fazer o que quis até agora...- disse a voz misteriosa – expondo minha vida, me colocando como aberração de circo para deleite dos seus fãs - Anny tentava raciocinar, mas o chão parecia tremer sob seus pés, com receio de desmaiar naquele instânte, Anny tenta manter-se o mais calma possível – Ainda está aí Anny? Anny? - Anny respira fundo, tentando não demonstrar seu desespero
- Estou....e não sei do que você está falando....quem é..e...que tipo de brincadeira estúpida está querendo fazer comigo. Mas aviso...meu namorado é polícial e não vai exitar em chutar esse seu traseiro, daqui até o Congo, seu idiota maníaco.     
- Ooo, a sim, claro, o príncipe de jaqueta surrada e trejeito canastrão. O conheci e sabe Anny, ele..........manda lembranças.

Anny sente como se levasse um soco na boca do estômago. Tentando manter o raciocinio, diz pra sí mesma que o maldito filho da mãe está blefando, é só um idiota, Lian nunca seria pego tão facilmente, não o seu Lian.
- O que foi Anny? Perdeu a fala? Aaaa.. isso só pode ser sintoma de saudade contida. Quer falar com ele? Adoro unir casais apaixonados. Olha só querido Lian, sua namoradinha quer dizer alô...
 - Anny, diz pra sí mesma que o desgraçado só pode estar blefando, mas aproxima mais ainda o aparelho do ouvido.
- Anny.....- Anny sente a força fugir-lhe do corpo, deixa-se cair devagar, escorando-se à parede. O desespero toma conta de sua mente – Seja o que for que ele lhe peça, não ceda Anny...ah... - Anny ouve um som seco de alguma coisa dura batendo e a voz de Lian sumindo do outro lado da linha.
       - Podemos conversar agora, cara Anny? - novamente aquela voz, Anny sabe que nunca mais irá conseguir esquecer-se dela.
-  Por favor....seja lá quem for você, ou o que queira de mim....só não o machuque.....por favor - Anny agora já não conseguindo controlar-se mais, implora ao estranho.
 - OK, acho bem justos os seus termos. Então vamos fazer o seguinte....eu deixo o morenão aqui, com digamos, apenas alguns arranhões...afinal, há de concordar comigo que ele não é uma caça assim tão “fácil”. Mas em contrapartida.....- Anny ainda tenta raciocinar, medir, pesar o que quer que ele peça, sabe que fará, pois realmente ama Lian, não conseguiria viver sabendo que poderia ter feito alguma coisa para salvá-lo e não o fez. - Você vai pegar o seu carro.... - continua a voz do outro lado, Anny tenta concentrar-se para ouvir as instruções- vai dirigir até o velho galpão da antiga Central Distribuidora de Bebidas, perto da rodovia principal e parar. Aguarde até que eu faça contato. A querida...., te aconselho a agasalhar-se, está bem frio aqui fora.
- Quanto você quer....- Anny tenta ganhar tempo, pensando em como Lian agiria nesse caso.
 - Quanto?...Querida, acha mesmo que me daria todo esse trabalho por ..dinheiro? - Lia percebe o tom de voz do estranho mudar da indiferença para uma explosão de raiva - Sua garota estúpida e fútil, não quero o seu dinheiro, quero que se dane. Que sofra tudo que eu sofri. Aliás...quanto foi a vendagem do seu último livro? Alguns dígitos acredito.....Pois eu, reivindico a minha parte nesse lucro, só que quero em espécie....aliás, o seu lindo corinho alvo. Anny ouve o som do telefone desligado por alguns segundos, tentando fazer sua alma retornar para o seu corpo.
Em choque, senta-se no chão e sem a mínima ideia do que fazer, apenas chora.
Tentando refazer-se, certa de que precisa ajudar Lian, encaminha-se para o armário no banheiro, pega um vidro branco de calmantes, enchendo a palma da mão. Pensa por alguns minutos na quantidade que estava decidida a tomar e decide tomar apenas três pílulas, não pode estar grogue, não poderia ajudar Lian assim.
Pega as chaves do carro, um casaco cinza de pura lâ italiana, o primeiro que encontrou pendurado na saída da porta e sai, batendo a porta às suas costas e certa de que essa noite, mudaria sua vida para sempre, e ela sinceramente rogava que Deus lhe concedesse mais uma chance, para sí mesma e para Lian.
  Anny pára no acostamento da rodovia, em frente a antiga Distribuidora, conforme orientação. Tensa, olha para os lados, tentando visualizar alguma coisa, ou, qualquer coisa que pudesse identificar.
Tenta juntar as peças do quebra – cabeça. O sequestrador se referiu ao seu último livro. Um romance sobre um serial Killer, bem ao seu estilo. Aliás, Anny inicialmente havia menosprezado esse manuscrito, por o considerar de pouco vendabilidade. Por pouco não o havia incinerado, mas seu editor, num jantar em sua casa, o havia resgatado da lixeira. Anny não se importou, apenas o teria alertado de que aquela não era uma boa história. Ao que o seu editor respondeu com uma risada sarcastica que essa questão, de avaliar a vendabilidade ou não de uma obra, era sua e não de Anny.       No dia seguinte, muito cedo ainda, ele pareceu na porta de Anny, com o manuscrito na mão e um brilho nos olhos que Anny conhecia bem.
 - Vamos editá-lo, é uma obra prima!!. -  Anny, nem tentou argumentar, sabia que com John, isso não funcionaria. Quando enfiava uma ideia na cabeça, não havia quem conseguisse demovê-lo
- OK – disse-lhe Anny – Mas se esse for o fim da minha carreira como escritora, saiba que cortarei meus pulsos e virei puxar seus pés a noite John, não tenha dúvida disso.
Mas não foi. “Dia ruim em Anland” foi um sucesso absoluto de vendas. Nem Anny acreditava naquilo. Como pode uma obra absolutamente irrelevante, com um enrredo sem grandes maravilhas literárias, tornar-se um sucesso de vendas e pior, o maior sucesso seu até hoje, diga-se de passagem. Isso realmente a perturbava. Ou suas obras eram tão insignificantes a ponto de ficarem abaixo dessa, que já achava ser insignificante, ou o nível cultural dos seus leitores vinha em um declínio constante. Anny não sabia dizer qual opção seria a mais desesperadora, enquanto escritora.
Mas voltemos a obra. A história contava sobre um serial Killer nos dias atuais, que roubava inicialmente roupas das mulheres que pretendia assassinar. Depois, as sequestrava, torturava e finalmente as matava, com as próprias mãos. Vestia seus cadáveres com a roupa que havia anteriormente roubado e passava dias em seu velho porão, dançando ao som de Willie Nelson com seus cadáveres.
De repente Anny ouve um barulho próximo a traseira do carro, como o som de uma pedra batendo contra a lataria.
Decide sair, afinal já que veio até aqui, de que adiantaria permanecer dentro do carro. Lentamente sai do veículo, observando o imenso breu à sua volta. O silêncio ensurdecedor daquela paisagem, congelava até os pelinhos do seu nariz. Com passos receosos, rodeia o veículo, tentando identificar o que teria batido na lataria. Parando pouco atrás do lado esquerdo do carro, percebe alguma coisa no chão. Aproxima-se um pouco mais, a escuridão da noite é muito grande. Apanha o celular do bolso, tentando identificar o objeto redondo e negro no chão, semelhante a uma bola. Mira a luz do celular e com o pé, tenta remexer o objeto.
- Meus Deus ! - grita Anny desesperada com a cena que visa. A cabeça de Lian, com olhos vidrados de desespero – sente alguém aproximar-se por trás e antes que tivesse tempo de virar-se, sente sua boca sendo tampada e perde os sentidos, ouvindo como se estivesse muito longe, a mesma voz que ouvira no telefone.
 - Deus não vai te ajudar agora Anny. Agora somos eu e você. O sequestrador a toma em seus braços, observando-a por alguns instântes. Abre o porta malas, colocando-a delicadamente dentro do pequeno espaço. Como quem coloca para dormir uma criança e sorrindo fecha a porta do porta – malas do carro de Anny, entra e dá a partida, deixando para trás a cabeça de Lian, separada do corpo, no acostamento da rodovia.
Anny, remexe-se tendando acomodar-se no pequeno espaço de seu porta -malas. Aos poucos vai recobrando os sentidos e lembrando-se da cena que se seguiu. Tenta gritar, quando percebe a mordaça que tampa-lhe a boca. Percebe que suas mãos e pés estão amarrados e para seu desespero, ainda se percebe nua.
 - Pronta minha querida – diz a voz que Anny jamais esquecerá , do lado de fora do carro.
- Anny, esbraveja resmungando, em parte por medo em parte por raiva do desgraçado que acabou com a vida de Lian.
De repente tudo fica muito quieto do lado de fora e Anny pára tentando entender o que se passa. A porta se abre e Anny pode visualizar o rosto do seu algóz, tornando ainda maior o seu desespero. Anny não só era uma excelente escritora, mas também fazia as suas próprias ilustrações, como em seu último livro, que estampava na capa, o rosto do seu personagem principal, o serial killer de “Dia ruim em Anland”, olhos azuis, rosto alvo, cabelo alinhado como um ator de propaganda de margarina. Anny nunca entendeu porquê aquele “tipo” veio-lhe a mente, mas achou interessante esse contra ponto entre o “belo” e a “fera”, meio a lá “Dorian Grey”. Mas agora, já não achava mais graça alguma, pois o filho da mãe que havia decapitado Lian e a sequestrado, era sem dúvida a projeção real da sua fantasia. O monstro de carne e osso que Anny havia ilustrado para a capa de seu livro, materializava-se à sua frente, como num dos seus contos de horror. Só que apavorantemente real.
O estranho venda- lhe os olhos. Anny percebe que ele a envolve em alguma espécie de cobertor, passam por um campo, por uma casa, uma porta que range vertiginosamente ao entrarem. Novamente uma escada, agora que segue para baixo. Sente por trás da venda que é um lugar muito escuro, com um odor desagradável, que Anny não consegue distinguir.
 - Sente-se - Anny sente a mão dele em seu ombro, a empurrando, forçando-a assentar-se, semi nua sob uma superfície macia, mas gelada.
Ele retira-lhe a venda. Anny percebe onde está. É um porão, sujo, escuro e úmido. Com apenas uma lâmpada, enchendo de sombras os espaços, tornando a cena ainda mais assustadora.
- Vista-se - Ele lhe entrega uma caixa. Anny não tem forças para qualquer negativa. Apenas abre a caixa. Um vestido azul de seda, muito parecido com um dos seus. Aliás um dos seus que há algum tempo não encontrava mais. Lembrava-se de o ter enviado a lavanderia, mas não de tê-lo guardado novamente e …..Anny finalmente compreende. O desgraçado pensa que é o seu personagem, o que só faz seu pavor aumentar mais e mais, pois além de um maníaco homicida que decepa cabeças, agora Anny se dá conta de que está na companhia de um “fã” maníaco homicida, que pensa que é o pior serial Killer que já existiu, fugido de um dos seus próprios livros de horror idiotas
Anny veste a sua própria roupa roubada, tentando ganhar tempo e raciocinar sobre o que fazer.
 - Você está linda querida – diz a criatura horrenda à sua frente – Poderíamos ter uma linda noite hoje não é? Vou fazer diferente com você minha querida, afinal, você é minha convidada de honra. Vamos nos divertir primeiro. Está com fome? - Anny acena afirmativamante com a cabeça, apavorada demais para emitir qualquer som. Anny o observa subir as escadas e trancar a porta, deixando o ambiente absolutamente silencioso.
Tenta raciocinar, o que Lian faria, passa os olhos pelas paredes tentando encontrar um fiozinho de esperança. Percebe uma minúscula janela, no alto da parede. Com muito cuidado, tenta alcança-la, percebe que apesar de pequena, talvez consiga passar seu corpo por entre o mínúsculo espaço. Neste momento, agradece os apelidos de gazela, o corpo esguio e magérrimo, conquistado com noites e noites escrevendo, entupindo-se de café e cigarros. Com muito esforço consegue esgueirar-se pela janelinha, mesmo o raspar do seu corpo contra o reboco da parede, causando lacerações em sua pele, não a detém, sabe que essa é sua única chance.
Quando se vê finalmente livre, corre em direção ao seu veículo. Dá graças pela sua personalidade absolutamente descuidada, as chaves estão na ignição. Dá a partida, com uma mistuira de alívio e desespero, quase ainda pode ouvir a voz da aberração.
Alguns quilômetros depois, Anny encontra duas viaturas da Polícia rodoviária. Estaciona bruscamente o carro, chamando a atenção dos oficiais. Sai do veículo, suas roupas rasgadas e sangrando pelas lacerações obtidas durante a fuga.
Os oficiais imediatamente correm até ela. O mais jovem, consegue ampará-la. Anny olha fixamente em seus olhos, e já delirando, vê Lian. Com um sorriso nos lábios, Anny desmaia, deixando ambos os oficiais sem entender absolutamente nada.
Anny acorda num pulo, corpo molhado de suor, tentando controlar sua respiração. O mesmo pesadelo de sempre e o que mais lhe incomoda é que lembra-se apenas das últimas cenas, a cabeça de Lian rolando no chão, flashs de um quarto escuro, os policiais.... simplesmente não consegue juntar as peças, quantas vezes mais vai aguentar? Anny se pergunta isso toda a noite. Toma o frasco de comprimidos calmantes nas mãos, com uma sensação de Dejavú, enche a palma da mão e por alguns minutos pensa na quantidade que intencionava tomar, devolve alguns ao frrasco, mantendo somente três na palma da mão. Engole – os de uma só vez, empurrando – os goela abaixo com um copo de água.

Volta os olhos para a cabeceira da cama, um manuscrito seu. Havia – o iniciado na noite anterior, apenas um primeiro capítulo. Seu editor havia encomendado um romance policial, com algum Serial Killer, uma mocinha indefesa e um policial brutamonte. Sangue e paixão, “Receita de sucesso”, dissera John, seu editor.

Anny não concordava, seus romances normalmente falavam das agruras do amor, das dificuldades que as almas tem de se encontrarem. Desencontros, na verdade esse era o tema principal, em quase todos os seus livros.
- Pesadelos de novo querida? - Anny olha a silhueta parada à porta, a luz fosca do abajur o torna mais belo ainda. Corpo moreno, aqueles olhos que possuem para Anny, um poder muito maior que qualquer calmante.

É Lian. Anny lembra da cena de seu sonho, tantas vezes repetido, que quase consegue ver sua cabeça, rolando inerte, ao lado do carro. Esfrega os olhos com as palmas das mãos, como se tentando afastar a imagem horrenda que a persegue.
- Ah amor, eu gostaria de saber como pará-los, não sei porquê minha mente insiste em me torturar dessa forma. Eu...simplesmente não sei o que fazer ….. - Lian coloca-se ao seu lado e a toma em seus braços, aninhada, como querendo tomar-lhe a dor. Tinha essa capacidade, tomar-lhe a dor, confortar, amparar. Talvez por isso Anny o amasse tanto. Realmente não saberia como viver sem ele.
 - Conseguiu terminar a tal “Receita de sucesso”? - Lian, havia recém-chegado, trabalhava no departamento de perícias da Polícia. Seu trabalho tinha horários, digamos, nada convencionais. Talvez isso também os ajudasse, porque raramente Anny usava a madrugada para dormir mesmo.
 - Não, só um primeiro capítulo que, na minha opinião ficou muito ruim.
 - Que é isso querida. Garanto que será um “Bestseller”, mas agora que tal deixar o toque do teclado do seu computador por um toque, digamos, mais “interessante”? - Anny percebe as mãos de Lian a envolvendo, dissipando de sua mente todas as imagens ruins que a assombravam.
 - Hummmm......gostei.....posso editar essa obra quantas vezes quiser? - diz Anny, lançando -lhe um olhar malicioso.
 - Claro, minha escritora favorita, me entrego em tuas mãos.
Ao som dos carros a passar na rodovia, fazem amor com a fúria e a docilidade de qualquer apaixonado, caindo exaustos, ao mesmo tempo que lá fora, o sol nasce e devagarinho levanta-se no céu.
Lian levanta-se, meio sonolento e observa a linda mulher deitada ao seu lado, serena, dormindo profundamente. Pega em mãos o manuscrito, já meio rabiscado pelas diversar correções, percebe que Anny teve algumas dificuldades para escrevê-lo.
 - Então? O que achou? - Lian se vira, percebendo os olhos reprovadores de Anny. Sabe que ela não gosta que leiam seus trabalhos, antes de concluí-los e revisá-los umas duzentas vezes pelo menos.
 - Ah.....desculpe Anny - responde Lian, com um meio sorriso - Não pude resistir.
 - Tudo bem....e então...? - questiona Anny, ainda tentando acordar
 - Ah....está no começo ainda não é? Não dá para dizer?
 - Está horrível...já entendi.. - diz Anny sorrindo – Não consigo entender porquê Jonh quer um erredo estúpido desses.
 - Bom...e já deu um título para ele?
 - Sim.....pelo menos isso já consegui definir. Nem sei de onde, mas foi a primeira coisa que me veio a cabeça, antes mesmo de começá-lo.
 - E qual é? - questiona Lian
 - Porquê quer saber? Nem sei se irei terminá-lo... - Anny responde, levantando-se enrolada em seu lençol e já acendendo um cigarro.
 - Ah...fala...quero saber.
 - Ok...- diz Anny voltando para buscar a toalha e dando um beijo demorado em seu amado. - É “Dia ruim em Anland”.

Por Alyne Luz

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